Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quinta-feira, 20 de julho de 2017

A "Pipa Voadora" - Uma pintura de Rodrigo Cabral



Exposição Ecos Pop - Isabel e Rodrigo Cabral

Foi inaugurada no passado dia 13 de Julho no Pavilhão de Exposições da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto a Exposição de Isabel e Rodrigo Cabral intitulada Ecos Pop que se manterá aberta até 28 Outubro 2017.



A pintura de Isabel e de Rodrigo Cabral e os ecos da Pop

Sobre o contexto das décadas de 70 e 80 do século passado e os reflexos da Pop Arte nas pinturas de Isabel e Rodrigo Cabral remeto para a primeira parte do rigoroso texto de Bernardo Pinto de Almeida, Memórias do Presente — Passagem de Isabel e Rodrigo Cabral na Arte Portuguesa, uma publicação que acompanha esta Exposição. [1]

Para a compreensão de uma pintura de Rodrigo Cabral

Das pinturas expostas escolhi abordar neste blogue a intitulada Pipa Voadora, não só porque é um quadro que conheço bem mas, sobretudo, porque para quem hoje o vê pela primeira vez, ele tem um ambíguo significado algo diferente ao que o artista certamente procurou quando o concebeu e pintou.



Rodrigo Cabral, A Pipa Voadora, 1983, acrílico s/ tela 95 x70 cm. Col. Particular.

O quadro

O quadro sobre um fundo dividido em faixas e em que domina a cor azul, tem rigorosamente ao centro e atraindo a atenção do espectador a figura de um jogador de futebol cavalgando uma pipa, que sobrevoa a cidade do Porto.

Apresenta-se como um cartaz podendo servir para uma promoção de um qualquer evento na cidade ou mesmo para a promoção da cidade do Porto.

Esta utilização das técnicas do cartaz resultam da influência da Pop Art, que procurava modernizar e actualizar a arte para seduzir públicos mais vastos.
Com a utilização de imagens conhecidas pelo público, utilizando as novas técnicas de comunicação desenvolvidas pela publicidade procurava tornar a arte mais fácil de compreender e de criticar.
Por isso a Pop Art ia buscar à publicidade o espaço a duas dimensões, a utilização das cores publicitárias, os contrastes e acumulações de objectos e produtos do quotidiano, banais, populares e icónicos.

Mas na Pop Art existe sempre uma ambiguidade.
Ao pretender ridicularizar e denunciar os mitos da sociedade de massas e de consumo do século passado tornam-se de facto os seus promotores.

O quadro e os equívocos da sua leitura actual

Tempora mutantur, nos et mutamur in illis
[Os tempos mudam e nós mudamos com eles.] [2]

Para tentar destruir algumas destas ambiguidades que com o passar do tempo o espectador de hoje poderá ser confrontado, façamos uma leitura mais detalhada do quadro, da sua dimensão crítica, da sua proposta de uma visão que interroga a realidade.
Rodrigo Cabral é um artista cívica e politicamente engagé com uma permanente atitude crítica e denunciadora, procurando neste período da sua pintura sublinhar ironicamente os objectos banais ou “kitsch”, desmitificando a sua promoção pelo consumismo e pelo conformismo social, sem nunca perder, contudo, a dimensão plástica e estética da pintura.
Uma pintura que não quer ser interrogada mas que quer interrogar.

Para uma comparação com a Pop americana veja-se a pintura de James Rosenquist I Love You with My Ford onde, utilizando também técnicas publicitárias, se criticam os mitos sexuais americanos: o spaghetti, a mulher e o automóvel.



James Rosenquist (1933-2017) I Love You with My Ford 1961, óleo s/tela, 210 x 238 cm. Moderna Museet, Stockholm.

Do mesmo modo Rodrigo Cabral pretende referenciar os grandes símbolos com que, na época, se pretendia identificar a cidade do Porto, recriando a sua imagem: o Vinho do Porto, o Futebol e o Galo de Barcelos.

O perfil da cidade barroca

Na base do quadro um perfil da cidade.



Sob um céu que se desfaz em nuvens douradas naquela hora em que uma transcendência de melancolia paira e comove-nos, e o sol se põe e ilumina o Porto a cinzenta cidade de granito que aqui se quer setecentista, portuária e atlântica, já que nela sobressai o símbolo que é a Torre dos Clérigos simultaneamente austera e exuberante.
Por trás do Paço Episcopal, que irrompe subitamente branco no seu reboco, erguem-se, escurecidas, as cúpulas das Torres da Sé.
E se a Torre dos Clérigos e o Paço Episcopal são obras de Nicolau Nasoni (1691-1773) pertencendo ao período tardo barroco, a Sé sendo uma construção medieval, são também barrocas as cúpulas que encimam as suas torres.


A figura central

O Vinho

Esse vinho, que brilha
Nessa vasilha,
Que vinho he?
Se nao me engano,
Vinho he do Porto,
Que o nosso Baccho
Para conforto
Quando está fraco
Costuma usar. [3]


A figura central do quadro cavalga uma pipa com as mitológicas asas da Fama, de onde escorrem, sobre a cidade, num apontamento inesperado, poético e surrealista, uvas brancas como as uvas da alegria [4]


 Na pipa está escrito Real Companhia Velha, remetendo para a história centenária do Vinho do Porto que, a partir do século XVIII - daí a paisagem da cidade que figura no quadro - com a criação da Real Companhia das Vinhas do Alto Douro, se tornou uma das bases da economia da cidade e natural componente da sua identidade.
Por isso a pipa bate as asas da Fama exportando-se do Porto para o mundo.

Vinho do Porto
Vinho de Portugal
E vai à nossa
À nossa beira-mar
À beira Porto
Há vinho Porto mar
Há-de haver Porto
Para o nosso mar
[5]

Um desses países era (e é) o Brasil.
Brasil onde uma pipa voadora é o que nós chamamos de papagaio de papel com que brincámos nas praias.

Justifica-se assim, não sei se conscientemente, o título da pintura.

O futebol

Meu coração não joga nem conhece
as artes de jogar. Bate distante
da bola nos estádios, que alucina
o torcedor, escravo de seu clube.
[6]



A figura central encavalitada na pipa é um jogador do Futebol Clube do Porto, o principal clube da cidade, ainda sem as glórias europeias mas procurando, pelas vitórias desportivas, tornar-se um dos elementos aglutinadores da cidade e da região, então procurando uma afirmação nacional e internacional.

Na parte superior do quadro, os emblemas dos outros dois clubes da cidade com êxitos desportivos, o Boavista Futebol Clube e o Sport Comércio e Salgueiros e mais abaixo o emblema do FCP parcialmente representado.
Todos estão assombrados pela silhueta colorida do Galo de Barcelos.





O logotipo dos Rolling Stones

Evocando a revolucionária irreverência que então se afirmava contra a austera e retrógrada sociedade portuguesa, no lugar da cabeça do futebolista surge uma referência simétrica ao logotipo Tongue ou Hot Lips da banda inglesa Rolling Stones, uma provocadora língua de fora às reumáticas convenções sociais e artísticas que persistiam no Portugal de então.


 O logotipo dos Rolling Stones no quadro de Rodrigo Cabral 
e a versão do logotipo dos Rolling Stones dessa época.

Este logotipo criado em 1969-70 por John Pashe então estudante no the Royal College of Art in London, surgiu em 1971 na capa do LP Sticky Fingers de 1971, tornando-se tão popular que a banda sempre o utilizou até aos nossos dias.


 
John Pasche (n.1945) Tongue ou Hot Lips 1970. À esquerda o logotipo inicial colorido. À direita o desenho original do logotipo. Victoria & Albert Museum, London.

Os barros de Barcelos e o famoso Galo

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há «papo-de-anjo» que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira, …
 
[7]

Na faixa axadrezada, uma referência ao Boavista Futebol Clube (?), surgem para além de duas bandeiras nacionais, dois Galos de Barcelos e cinco diferentes barros tradicionais de Barcelos.
Estes são uma referência à cultura popular e à falsa e folclórica apropriação do Galo de Barcelos como símbolo nacional.



Rocha Peixoto num artigo intitulado As olarias de Prado, datado de Outubro de 1899 e publicado na Revista Portugália dá já notícia e apresenta desenhos destas figuras de barro. [8]

O tradicional carro de bois, os músicos, as figuras da procissão, os animais e os demónios, são já referidos por Rocha Peixoto.



E esses pequenos bonecos de barro da cultura tradicional do Minho e em particular de Barcelos surgem na pintura em Portugal, em 1915, num modernismo que explora a forma e a cor, dos objectos de artesanato português.
A presença dos Delaunay em Vila do Conde conduz à descoberta desses valores plásticos, quer por Amadeu de Sousa Cardozo quer sobretudo por Eduardo Viana, que então produzem algumas pinturas tendo por tema os barros de Barcelos.

Eduardo (Afonso) Viana Louça de Barcelos 1915, óleo s/ tela 50 x 61 cm. 
Museu Nacional Soares dos Reis. Porto.

No quadro de Rodrigo Cabral evoca-se os tradicionais e originais bonecos das procissões de Rosa Ramalho (1888-1977), a barrista de Barcelos “descoberta” nos anos 50 pelo pintor António Quadros. [9]


O Galo de Barcelos

Destes barros de Barcelos o galo, animal carregado de múltiplos simbolismos, é muito antiga.
Rodrigo Cabral utiliza-o na sua figuração mais turística, nesta e em outras pinturas desta época, por vezes colando pequenos Galos de Barcelos na parte superior dos seus quadros, como uma crítica ao uso do Galo como símbolo de Portugal.

Não cumpre aqui fazer a história do Galo de Barcelos.
Remetemos por isso para um pequeno ensaio intitulado Uma história natural do Galo de Barcelos da autoria de João Manuel Mimoso http://www.inverso.pt/barcelos/galo/textos/historia.htm

Nele se pode ver a evolução do Galo de Barcelos desde o Galo que figura no citado artigo de Rocha Peixoto, até ao Galo identificado como símbolo do artesanato português que terá surgido em 1940 com a Exposição do Mundo Português onde muitas peças de artesanato local foram exibidas na Casa de Barcelos da Secção Aldeias Portuguesas.


Depois de diversas variantes formais, nos anos 50, consagrou-se uma forma em que o galo, pintado de negro e decorado de corações, assenta num pedestal azul. O pescoço tanto pode ser mais curto como mais longo e a grande crista vermelha tanto é serrilhada como lisa.
Esse Galo foi e é explorado para a promoção do turismo identificando-o como símbolo de Portugal.


Legenda
1 – Galo no artigo de Rocha Peixoto
2 – Paliteiro em forma de Galo c.1930
3 – Galo com relevos c. 1940
4 – Galo vidrado de castanho na Exposição do Mundo Português. Museu da Cerâmica, Caldas da Rainha
5 – Galo decorado e com patas 1950
6 – Galo com a forma e a decoração com que se difundiu 1965
7 – Galo numa das formas actuais

Cartaz em que figura o convencionado Galo de Barcelos destinado à promoção turística e do artesanato de Portugal.   





A bandeira nacional e a Pop Art

ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!
[10]



Rodrigo Cabral insere ainda nessa faixa axadrezada a Bandeira Nacional.

A Bandeira nacional, como o tema entre todos o mais reconhecível, é um dos temas utilizados pela Pop Art nomeadamente Jasper Jonhs (1930) com a sua série de Bandeiras dos Estados Unidos realizada a partir de 1951. 

Rodrigo Cabral tentou ainda ensaiar uma série com a bandeira nacional.
 

Jasper Johns, Three Flags, 1958 Encáustica sobre tela 78 x 116 x 13 cm. 
Whitney Museum of American Art, Nova York.


Conclusão


Na verdade a pintura A Pipa Voadora de Rodrigo Cabral, vista nos nossos dias parece uma visão precoce dos símbolos e dos mitos da cidade e de Portugal.
O Vinho do Porto agora acompanhado pelos vinhos de mesa do Douro tornou-se de novo um dos valores seguros da cidade.
A zona histórica do Porto foi promovida, em 1996, a Património da Humanidade e a Torre dos Clérigos, é agora o símbolo por excelência da cidade.
O Galo de Barcelos, nas suas diversas variantes, e apesar das suas origens, tornou-se o símbolo da cidade de Barcelos e o mais identificador de Portugal. É o mais procurado objecto de artesanato pelos turistas mesmo pelos que visitam a cidade do Porto.
O Futebol hoje tornou-se global e como cultura dominante no nosso país é um obsessivo tema da comunicação social em jornais e programas diários na rádio e na televisão. E o F.C. do Porto, depois das vitórias europeias e nacionais, por vezes com alguma intolerância desportiva, foi sendo associado à cidade como um dos elementos da sua internacionalização.
A Bandeira Nacional só se tornou um símbolo verdadeiramente popular com a sua exibição por todo o país, durante o Campeonato Europeu de Futebol, realizado em Portugal em 2004.


…O mais é jeito humano ou desumano
Conforme a inclinação do meu engano. [11]



[1] Bernardo Pinto de Almeida, Memórias do Presente — Passagem de Isabel e Rodrigo Cabral na Arte Portuguesa, Edições Afrontamento, 2017.

[2] Adolf Loos (1870-1933), in Paroles dans le vide (1897-1900) tr. fr. C. Heim, Paris, Ivréa, 1994. Citação em latim, inspirada em Ovídio e popularizada no século XVI, como no célebre soneto de Camões: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades…

[3] Antonio Diniz da Cruz e Silva Dithyrambos in Poesias de Antonio Diniz da Cruz e Silva na Arcádia de Lisboa Elpino Nonacriense, Tomo III que contem as Poesias Liricas. Na Typographia Lacerdina, Rua da Condeça ao Carmo n.º19, Lisboa 1812. (pág. 15).

[4] Carlos (Manuel de Marques) Paião (1957-1988), Vinho do Porto, vinho de Portugal, com Cândida Branca Flor (1949-2001) EMI (Electric and Musical Industries Ltd.) 1983.

[5] Carlos (Manuel de Marques) Paião (1957-1988), Vinho do Porto, vinho de Portugal, com Cândida Branca Flor (1949-2001) EMI (Electric and Musical Industries Ltd.) 1983.

[6] Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Quando é dia de futebol. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. (pág.72).

[7] Alexandre (Manuel Vahia de Castro) O'Neill (1924-1986), Portugal de Feira Cabisbaixa, Editora Ulisseia, Lisboa 1965. (pág. 211).

[8] António Augusto da Rocha Peixoto (1868-1900) As Olarias do Prado de A Estatuária de Etnografia Portuguesa. Indústrias Populares, in Portugália, Materiais para o Estudo do Povo Portuguez, Publicação Trimestral Director Ricardo Severo, Redactor em Chefe Rocha Peixoto e Secretário Fonseca Cardoso. Primeiro Tomo (1899-1903), Fasc. 2, Composto e Impresso nas Officinas da Imprensa Portugueza, Rua Duque de Loulé n.º 101 a 107, Porto 1903. (pág. 250 a 270).

[9] António Augusto de Melo Lucena e Quadros (1933-1994).

[10] Alexandre O'Neill, in Feira Cabisbaixa, Editora Ulisseia, Lisboa1965. (pág.211).


[11] Carlos Drumond de Andrade, Soneto do pássaro in Antologia Poética. Segunda Edição. Editora do Autor Rua Araújo Porto Alegre, 70. Rio de Janeiro 1963. (pág. 171).