Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















domingo, 14 de janeiro de 2018

Aproximação ao Retábulo de Issenheim de Mathis Grünewald 1


Foi já há alguns anos que, em Colmar, admirei pela primeira vez o Retábulo de Issenheim.
E como Joris-Karl Huysmans (1848-1907), o historiador de arte que “descobriu” o retábulo e o seu autor, achei como ele que com os seus búzios coloridos e os seus trágicos gritos, com as violências de apoteose e os seus frenesis de monstros, ele [Grünewald] monopoliza-nos e subjuga; comparando estas clamores e estes extremos, tudo o resto parece vazio, enfadonho e sem graça.  Deixa-nos para sempre extasiados.[1]

gr1compfig. 1 - Mathis Gothart Nithart dit Grünewald (1475/80 - 1528), Le Retable d'Issenheim, 1512-1516. Óleo e têmpera sobre madeira de tília, 3,30 x 5,90 m. Desde 1852 no Museu d'Unterlinden, Colmar. França.
O retábulo, recentemente recuperado, é hoje apresentado no Museu d’Unterlinden em três peças separadas mas inicialmente era composto por vários painéis que, por um engenhoso sistema de dobradiças, se podiam abrir como páginas de um livro.
gr2compfig. 2 – 1ª visão. O retábulo fechado.

gr3fig. 3 – 2ª visão. O retábulo aberto.

gr4compfig. 4 – 3ª visão. A base do retábulo.
Por essa altura tive também acesso a um precioso e belo livro com o título de Grünewald, Le Retable d’Issenheim, a tradução francesa de uma publicação ilustrada alemã, que aborda na quase totalidade todos os aspectos do retábulo de Issenheim. [2]
Esta publicação fez-me por isso pensar no que poderia adiantar neste texto, para além do conteúdo e dos múltiplos outros textos que existem sobre a obra-prima de Grünewald.
Proponho assim uma abordagem feita a partir de imagens do retábulo tentando uma relação com a poesia nomeadamente a poesia religiosa portuguesa da época da magistral pintura do mestre Grünewald.

[1] Joris-Karl Huysmans (1848-1907), Les Grünewald du Musée de Colmar in Trois Églises et Trois Primitifs, Paris, Plon 1908. (pág.194 e 195). Avec ces buccins de couleurs et ses cris tragiques, avec ses violences d’apothéose et ses frénésies de charniers, il [Grünewald] vous accapare et il vous subjugue; en comparaison de ces clameurs et de ces outrances, tout le reste paraît et aphone et fade. On le quitte à jamais halluciné.
[2] Grvnewald, Le Retable d’Issenheim. Textes de H. Geissler, B. Saran, J. Harnest, A. Moschlewski. Photos et mise en pages: Max Seidel. Preface et traduction de Pierre Schmitt, Conservateur du Musée d’Underlinden. Titre de l’édition originale: Mathis Gothart Nithart – Günewald, Der Isenheimer Altar. CHR. Belser Verlag, Sttutgart, 1973. Chr. Belser Verlag, Stuttgart et Office du Livre, Fribourg. 1974.

A pintura e a poesia
Lembro que foi o poeta grego Simónides de Céos (557 a.C.- 556 a.C.), quem pela primeira vez exprimiu a relação entre a pintura e a poesia com a sua conhecida afirmação: Muta poesis, eloquens pictura (a pintura é poesia muda e a poesia pintura eloquente), a que Horácio (65 a.C. - 8 a.C.) acrescentou que a poesia é como a pintura e como tal deve proceder:
Ut pictura poesis; erit quae, si propius stes,
te capiat magis, et quaedam, si longius abstes;
haec amat obscurum, nolet haec sub luce nideri,
indicis argutum quae non formidat acumen.
 [1]

[Como a pintura é a poesia: coisas há que de perto mais te agradam e outras, se a distância estiveres. Esta quer ser vista na obscuridade e aquela à viva luz, por não recear o olhar penetrante dos seus críticos; esta, só uma vez agradou, aquela, dez vezes vista, sempre agradará.]
E Leonardo Da Vinci, estabelecendo as respectivas diferenças no seu Trattato della Pittura, afirmava La pittura è una poesia che si vede e non si sente, e la poesia è una pittura che si sente e non si vede.
[A pintura é uma poesia que se vê e não se sente, e a poesia é pintura que se sente e não se vê.]
Procurei, tanto quanto possível, ilustrar os pormenores do retábulo com citações da poesia portuguesa apoiando-me em António Ferreira que por diversas vezes compara a poesia com a pintura:
Naõ lagrymas fingidas, não de cores
Falsas o rosto tinto, não cortadas
As palavras por arte, nem pintadas
Em versos ingenhosos falsas dores
.
 [2]
E em outro soneto:
Duas vidas, dous lumes concedidos
Vos são, de que alça a fama immortal grito,
Vida no verso, vida na pintura.  
[3]
E uma referência à pintura em versos dedicados a Afonso de Albuquerque:
Com quanto já de longe resplandece
Seu rayo, E a tua nua, & cham pintura
Nova aos olhos do Mundo se oferece.
Vestida de sua própria fermosura,
Não de outras cores vans, e lisongeiras
Aparece a verdade clara & pura.
[4]
Grünewald

Muito de misterioso envolve a personalidade de Mathis Gothart Nithart. Terá nascido em Würzburg (Baviera) por volta de 1475-1480 e faleceu em Halle (Saxônia) em 1528.
Foi o historiador da arte Joachim von Sandrart (1606-1688), que o designou como Matthias Grünewald na obra Teutsche Academie der Baubild und Malerey-Künste, de 1675.
Assinava com o monograma MNG e dele existe um estudo para o S. João que se crê ser um autorretrato.
gr5fig. 5 - Retrato de S. João Baptista que se pensa ser um auto-retrato.
gr6compfig. 6 –O monograma de Grünewald.
O retábulo foi realizado para o Hospício de Issenheim, o qual como todos os conventos da Ordem dos Hospitalários Antoninos, tinha por vocação tratar de enfermos e doentes.
Por isso o retábulo destinava-se a todos os que entravam no hospício que tinham perante a imagem de Cristo de confessar-se e comungar, e a conduzi-los a meditarem e rezarem perante as imagens da Bíblia.
Assim, e com a mesma função, temos o retábulo O Juízo Final (1443/52) de Rogier van der Weiden que se encontra no Hotel-de Dieu de Beaune. (Anexo ilustração 1)
Em Portugal no início do século XVI, entre outras e abordando temas semelhantes temos o tríptico A Tentação de Santo Antão de Jeronimus Bosch do Museu Nacional de Arte Antiga em Lisboa datado de 1502. (Anexo ilustração 2)
E na cidade do Porto podemos admirar a Fons Vitae (1515/17) do Museu da Santa Casa da Misericórdia do Porto, uma pintura rigorosamente contemporânea do retábulo de Issenheim. (Anexo ilustração 3).

[1] Horatio (65 a.C. - 8 a.C.), Epistola ad Pisones v. 361-365 in Horácio, Arte Poética. Introdução, Tradução e Comentário de R. M. Rosado Fernandes da Faculdade de Letras de Lisboa. Editorial Inquérito Limitada, Lisboa (pág.108 a 109)
[2] António Ferreira, Poemas Lusitanos Do Doutor António Ferreira. Dedicados por seu filho Miguel Leite Ferreira, ao Principe D. Philippe nosso senhor. Em Lisboa. Impresso com licença, por Pedro Crasbeeck. M.D.XCIII. (Livro I dos Sonetos, XXXV, pág. 10).
[3] António Ferreira, Poemas Lusitanos Do Doutor António Ferreira. Dedicados por seu filho Miguel Leite Ferreira, ao Principe D. Philippe nosso senhor. Em Lisboa. Impresso com licença, por Pedro Crasbeeck. M.D.XCIII. (Livro II dos Sonetos, XXX, pág. 23).
[4] António Ferreira, A Afonso d’Alboquerque em louvor dos comentários que compôs dos grandes feitos do seu pay. in Poemas Lusitanos Do Doutor António Ferreira. Dedicados por seu filho Miguel Leite Ferreira, ao Principe D. Philippe nosso senhor. Em Lisboa. Impresso com licença, por Pedro Crasbeeck. M.D.XCIII (Livro das Elegias Elegia VI. pág. 57).

O retábulo
O retábulo é constituído por um conjunto de painéis que se abrem sobre uma base esculpida que data de uma dúzia de anos antes das pinturas.
Em todos os painéis do retábulo ressalta o modo como Grünewald dá um tratamento realista e cru, mas muito expressivo, das composições e das figuras, onde se destaca a utilização avançada da cor e dos contrastes, os quais não tem equivalente na pintura da sua época.



As mãos

Procuraremos dar sentido, explorando também pela poesia, a densa obscuridade do marcado desenho das mãos que Grünewald sempre salienta na pintura do retábulo.

gr7acompfig. 7 – Pormenor da mãos de Paulo de Tebas no painel do Encontro dos Santos Eremitas.
Sublinhando, nas personagens do retábulo, o valor expressivo dos gestos e o tratamento das mãos, mãos que vês nas coisas transformadas. [1]



gr17afig. 8 – Pormenor da mão direita de Cristo no painel da Crucificação.

Ou seja mãos que são rostos sem olhos e sem voz, mas que vêem e que falam.

[visages sans yeux et sans voix, mais qui voient et qui parlent.]. [2]

gr27fig. 9 – Pormenor da mão de S. João Baptista no painel da Crucificação.

[1] Manuel Alegre, o canto e as armas, ed. europa-américa, 1979.
[2] Henri Focillon (1881-1943), L’Éloge de la Main 1934, in Vie des formes, suivi de Éloge de la main. Presses Universitaires de France, 1943. 7e édition, Paris 1981. (Livro I poema pág.101).
I parte - O Retábulo fechado: Crucificação, Santo Antão, São Sebastião, e a Deposição no túmulo.
1. O retábulo fechado
Fechado o retábulo tem no painel central uma extraordinária Crucificação e nos painéis laterais S. Sebastião e Santo Antão, os dois santos que estavam associados à cura das doenças e epidemias.
(Há quem defenda, com fundamento, a troca da posição dos painéis laterais regressando à sua posição antes de 1965).
Na mísula inferior a Deposição no túmulo.
gr9fig. 10 – Esquema do retábulo fechado.
gr10compfig. 11 - Mathis Gothart Nithart dit Grünewald (1475-1480 - 1528), Le Retable d'Issenheim, 1512-1516. Óleo e têmpera sobre madeira de tília, 3,30 x 5,90 m. Musée d'Unterlinden, Colmar. França.

1.1. A Crucificação
O retábulo fechado, que correspondia a quem dele se aproximava pela primeira vez, tem ao centro a figura de Cristo crucificado.
gr11compfig. 12 – A Crucificação. Painel central do retábulo fechado. (269 x 307 cm.).
Para evitar a junta que une os dois painéis formando o painel central, Grünewald, inteligentemente, desloca a cruz ligeiramente para a direita.
Ao centro Cristo na Cruz está acompanhado, do seu lado direito, pela Virgem Maria amparada por S. João Evangelista e por Maria Madalena ajoelhada. [1]
Grünewald sempre impressiona pelo brilhante e ousado uso da cor. E este painel central é disso exemplo com o seu fundo negro e crepuscular onde corre um rio de tristeza cujas rápidas ondas tem contudo a cor das águas mortas (coule un fleuve de tristesse dont les ondes rapides ont pourtant la couleur des eaux mortes). [2]
E onde o pintor faz sobressair o brilhante branco do pano que cobre a figura de Cristo, que é equilibrado por um lado pelo manto de Maria, e pelo outro lado pelo Cordeiro e pelo livro na mão de João Baptista.
As outras personagens trajam de vermelho e avermelhado.
gr11afig. 13 – Pormenor mostrando a coloração da Crucificação.
1.1.1. Cristo
No centro a figura de Cristo no momento trágico da sua morte domina o painel central.
Perante esta visão adverte Camões evocando o Criador dos quatro elementos:
Ó cristão descuidado e negligente!
Pondera-o com discurso repousado,
E ver-te-ás advertido facilmente.


Olha aquele Deus alto e incrinado,
Senhor das cousas todas, que fundou,
O Céu, a Terra, o Fogo, e o Mar irado. 
[3]


O corpo de Cristo, que parece com o seu peso dobrar a travessa da cruz, está pintado com um assustador e cru realismo, com os espinhos e as marcas da flagelação, os enormes pregos, que atravessam a madeira da tosca cruz, e laceram as mãos e os pés, a cabeça tombada e a boca aberta, com os lábios azulados parecendo dar um último suspiro.
gr12compfig. 14 – Cristo crucificado salientado do painel central.
A cabeça, com a coroa de espinhos, está tombada e tem a boca aberta em um último suspiro.
O Teu rostro, de cuja fermosura
Se veste o Céu e o Sol resplandecente,
Diante de quem pasmada está a Natura,
Com cruas bofetadas da vil gente,
De precioso sangue está banhado
Cuspido, atropelado cruelmente. 
[4]

gr13compfig. 15 – Pormenor da parte superior do corpo de Cristo.
O tronco De açoutes,& de espinhos lastimado,/Das mãos,& pés com cravos trespassado [5], com as feridas da flagelação e a chaga lateral de onde escorre um fio de sangue.
Ou nos versos de Camões:
Aquele corpo tenro e delicado,
Sobre todos os Santos sacrossanto,
A açoutes rigorosos dessangrado;

Depois, coberto mal dum pobre manto,
Que se pegava às carnes magoadas
Pera dobrar-lhe as dores outrotanto.
[6]
O pano que cobre Jesus está rasgado como o Seu corpo.
gr14fig. 16 – o corpo com as chagas e as feridas da flagelação.
Os pés de Cristo com uma torção provocada por um único e grande prego que os atravessa.
Aqueles pés, que pisam as estrelas,
Com duríssimos pregos se encravaram.
[7]
gr15fig. 17 – Pormenor dos pés de Cristo.
Cristo está pregado na cruz com apenas três pregos como salienta Lope de Vega no soneto da peça La Buena Guarda:
Oy que buelvo con lágrimas a veros,
clavadme vos a vos en vuestro leño,
y tendreysme seguro con tres clavos.
[8]
E só no século XVII aparecem imagens de Cristo crucificado com 4 pregos, um em cada pé.
Os braços compridos parecem dobrar o lenho tratado com realismo.
O Cristo, ao alto, alonga os magros braços nus
Por sobre a escuridão do rancho desolado
Que segue, ao som da marcha, o seu Jesus
Por nós crucificado.
[9]
gr16compfig. 18 – Pormenor dos braços e da cabeça de Cristo.
E as mãos Aquelas mãos, que o Mundo edificaram, [10] parecem agitar-se, os dedos crispados pela dor arranhando o ar, as palmas perfuradas pelos longos pregos que atravessam o lenho.
gr17fig. 19 – Pormenor da mão direita de Cristo.
gr18compfig. 20 – Pormenor da mão esquerda de Cristo.



[1] Como no Calvário do painel central do tríptico de Frei Carlos de 1520/30 do Museu Nacional de Arte Antiga.(Anexo ilustração 4).
[2] Joris-Karl Huysmans (1848-1907), Les Grünewald du Musée de Colmar in Trois Églises et Trois Primitifs, Paris, Plon 1908. (pág.164).
[3] Luís de Camões Elegia VI, A Paixão de Cristo Nosso Senhor, in Obras de Luís de Camões Lello & Irmão Editores, 144, Rua das Carmelitas, Porto 1970. (pág.415).
[4] Luís de Camões Elegia VI, A Paixão de Cristo Nosso Senhor, in Obras de Luís de Camões Lello & Irmão Editores, 144, Rua das Carmelitas, Porto 1970. (pág.417).
[5] Diogo Mendez Quintella, A Christo Nosso Senhor Vivo na Cruz, soneto 11, de Primeira Parte dos Sonetos e Obras Espirituais in Diogo Mendez Quintella, Conversam, e lagrimas da Gloriosa Santa Maria Magdalena, & outras obras Espirituaes. Canto Segundo est. 63. Composta pelo Licenceado em Canones & Sacerdote Diogo Mendez Quintela. Em Lisboa, com todas as licenças necessárias, Impressa por Vicente Alvarez. Anno 1615. (pág.95).
[6] Luís de Camões Elegia VI, A Paixão de Cristo Nosso Senhor, in Obras de Luís de Camões Lello & Irmão Editores, 144, Rua das Carmelitas, Porto 1970. (pág.417).
[7] Luís de Camões Elegia VI, A Paixão de Cristo Nosso Senhor, in Obras de Luís de Camões Lello & Irmão Editores, 144, Rua das Carmelitas, Porto 1970. (pág.419).
[8] Lope de Veja Carpio (1562-1635), La Buena Guarda. Comedia Famosa de Lope de Veja Carpio.
Dirigida a Don Ivan de Arguillo Veyntiquatro de sevilla. Acto Primero. Felis mayordomo.
In Decima Quinta Parte de las Comedias de Lope de Veja Carpio, Procurador Fiscal de la Camara Apostolica, y Familiar del Santo Oficio de la Inquisicion. Dirigidas a Diversas personas. Com Privilegio. En Madrid: por la viuda de Alonso Martin, a costa de Alonso Perez Mercador de libros. Año 1621. (pág.204).
[9] José Régio (1901-1969), Quinta feira Santa in Poemas de Deus e do Diabo (1925), 7ª edição, com “Introdução a uma Obra” (Posfácio) e ilustrações do autor. Portugália Editora, 1969.
[10] Luís de Camões Elegia VI, A Paixão de Cristo Nosso Senhor, in Obras de Luís de Camões Lello & Irmão Editores, 144, Rua das Carmelitas, Porto 1970. (pág.419).

1.1.1. As figuras à esquerda, Maria, S. João Evangelista e Madalena

S. João Evangelista e a Virgem Maria
Do lado esquerdo aos pés da cruz São João Evangelista, vestido com o tradicional manto vermelho, ampara com o braço direito uma angustiada Maria, vestida de branco, lembrando o tradicional traje das viúvas, e quase desmaiada.
Huysmans descreve São João e a Virgem Maria: São João, um velho estudante alemão, com uma face imberbe e humilde, cabelos louros que caem em secos sobre o manto vermelho, ampara uma Virgem extraordinária, vestida e a cabeça coberta de branco, desmaiando, branca como a roupa, os olhos fechados, a boca ligeiramente aberta e mostrando os dentes; a fisionomia é frágil e delicada, muito moderna. Sem o vestido verde que se entrevê perto das mãos cujos dedos crispados se quebram, tomar-se-ia por uma freira morta; ela é ao mesmo tempo lamentável e encantadora, jovem e verdadeiramente bela. [1]
gr19compfig. 21 – Pormenor de S. João Evangelista amparando a Virgem Maria.
S. João Evangelista é o apóstolo querido de Jesus e que acompanhou a Virgem Maria até à morte, como Dante refere na Divina Comédia:
«Questi è colui che giacque sopra ‘l petto
del nostro pellicano, e questi fue
di su la croce al grande officio eletto».
[2]
E Frei Agostinho da Cruz:
Joaõ Evangelista foi aquelle,
A quem disse o Senhor do Lenho duro
À Virgem; que seu filho era aquelle
. [3]

As mãos de Maria e de João.

João ampara Maria enlaçando-a pela cintura com o seu braço direito enquanto a mão esquerda, colocando um afago em cada dedo, segura o braço de Maria.
A posição da cabeça de João acompanha a inclinação do corpo de Maria, formando um todo escultórico que introduz dramatismo às personagens.
Este dramatismo é sublinhado pela posição dos braços e das mãos soluçantes de Maria erguidas e entrelaçadas num gesto de misericórdia e piedade.
gr20compfig. 22 – Pormenor de S.João amparando a Mãe de Jesus.

gr21fig. 23 – Pormenor das mãos de Maria.

[1] Joris-Karl Huysmans (1848-1907), Les Grünewald du Musée de Colmar in Trois Églises et Trois Primitifs, Paris, Plon 1908. (pág.161). [Saint Jean, un vieil étudiant allemand, au visage glabre et minable, aux cheveux jaunes qui tombent en longs filaments secs sur sa robe rouge, soutient une Vierge extraordinaire, habillée et coiffée de blanc, qui s'évanouit, blanche comme un linge, les yeux clos, la bouche mi-ouverte et montrant les dents; la physionomie est frêle et fine, toute moderne. Sans la robe d'un vert sourd qui s'entrevoit près des mains dont les doigts crispés se brisent, on la prendrait pour une moniale morte; elle est pitoyable et charmante, jeune, vraiment belle;]
[2] Dante Alighieri (1265-1321), A Divina Comédia Paraíso, tradução de Vasco Graça Moura. Quetzal Editores, Lisboa 2011. (Canto XXV, v. 112-114).
[“Este é o que jazeu por sobre o peito
De nosso pelicano, e foi também
De sobre a cruz ao grande ofício eleito.”]

[3] Frei Agostinho da Cruz, estrofe VIII. In Varias Poezias do Veneravel Padre Fr. Agostinho da Cruz religioso da Província da Arrabida, dedicadas ao Excel. E Reverend. Senhor D. Fr. Manoel do Cenaculo por Joze Caietano de Mesquita. Na Offic. de Miguel Rodrigues, Impres. Do Emin. S. Card. Patr. Lisboa M. DCC.LXXI. (pág.5).
Madalena

Não importa aqui referir a polémica em torno da figura bíblica de Madalena para o que se chama a atenção e se propõe a leitura do incontornável e muito bem documentado Madalena-História e Mito de Helena Barbas. [1]
Maria Madalena é, nos Evangelhos, uma das mulheres no Calvário (Mt. 27, 55-56; Mc. 15, 40-41; Jo. 19, 25)
O culto de Maria Madalena desenvolve-se a partir do século XV sendo a sua figura evocada na Bíblia como a pecadora.
Segundo o Evangelho de S. João, Madalena estava junto da Cruz: Perto da cruz de Jesus, permaneciam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Clopas, e Maria de Madalena. (Jo.19,25-27).

Por isso Grünewald representa Madalena ajoelhada, com longos cabelos, o rosto meio escondido por um véu, e trajando um longo e rico vestido vermelho pálido, significando a sua passada vida mundana.
Os joelhos em terra,
as mãos erguidas, presas.
E Deus o céu descerra
aos murmúrios que rezas.
Brilham mais as estrelas.
Mais neve o céu derrama.
E, se por fora gelas,
por dentro és uma chama.
E beija a tua face
o luar que aparece,
como se Deus mandasse
um sim à tua prece.
[2]
gr22fig. 24 – Pormenor de Madalena aloelhada aos pés da Cruz.
Madalena é também referida na Bíblia como a pecadora que lava os pés de Cristo com as suas próprias lágrimas e os enxuga com os cabelos.
Frei Agostinho da Cruz descreve a cena:
Tal luz à Magdalena alumiava
(Fermosa desd'antaõ, dantes taõ feia)
Que naõ lhe pareceu ser caza alheia
Aquella, onde o Senhor de tudo estava:
È como quem por tal o confessava,
Naõ teme, naõ duvida, naõ receia
Mostrar sinaes de dôr, de que alma chea
Taõ longe, de taõ perto suspirava:
Na terra jaz lançada, está regando
Com lagrimas as plantas do Senhor,

A cuja sombra colhe doce fruito:
Muito lhe perdoou; porque amou muito;
E muito mais lhe deu depois, que amor
Em lagrimas de dôr se foi banhando.
[3]

E ainda no soneto seguinte
Os pés, que dos seus passos foram guia,
Em lágrimas banhados alimpava
Com os cabelos de que se cubria.
[4]
E Diogo Bernardes, o seu irmão, escreve:
Fermosa penitente, que lavaste
Co licor dos teus olhos cristalino
Tu’alma, & pés de Christo, & os enxugaste
Com tranças derramadas d’ouro fino.
[5]
E Esteban de Villalobos refere, também, a cena:
Y en el lugar do estan comendo, entrado,
viendo su bien se puso a sus espaldas,
y las madexas de oro desatando
q’ al ciego Amor sirvieron de grinaldas,
dos caudalosos rios derramado
por los ojos queson dos esmeraldas,
baña los pies de Christo, y dando en ellos
mil besos los limpio com sus cabelos.
 [6]


As mãos que choram de Madalena estão crispadas e levantadas dirigindo-se ao Crucificado, como se por elas passassem todas as suas preces. Têm os dedos compridos e cruzados mostrando o seu sofrimento e desespero.

gr23compfig. 25 – Pormenor das mãos de Madalena.

[1] Helena Barbas, Madalena-História e Mito. Ésquilo edições e multimédia, Lda., Av. António Augusto de Aguiar, 17, 4º esq. Lisboa 2008.
[2] Alberto de Serpa (1906-1992), Natal in A Poesia de Alberto de Serpa, Campo das Letras, 1998.
[3] Fr. Agostinho da Cruz (Agostinho Pimenta 1540-1619). Á Magdalena XV. In Varias Poezias do Veneravel Padre Fr. Agostinho da Cruz religioso da Província da Arrabida, dedicadas ao Excel. E Reverend. Senhor D. Fr. Manoel do Cenaculo por Joze Caietano de Mesquita. Na Offic. de Miguel Rodrigues, Impres. Do Emin. S. Card. Patr. Lisboa M. DCC.LXXI. (pág.9).
[4] Idem (pág.9).
[5] Diogo Bernardes, (c. 1530 − ? c. 1605) Varias Rimas ao Bom Iesus, e a Virgem Gloriosa sua May, e a sanctos particulares. Com outras de honesta & proveitosa lição dirigidas ao mesmo Iesus, Senhor e Salvador Nosso por Diogo Bernardez. Com licença da S. Inquisição. Em Lisboa em casa de Simão Lopez. M.D.XCIIII (57).
[6] Esteban de Villalobos, Breve Svmma de la admirable conversion y vida de la gloriosa Magdalena. En estancias sacada a luz por Estevan de Villalobos. In Primera Parte. Del Thesoro de Divina Poesia donde se contienen varias obras de devocion de diversos autores, cuyos títulos se veran a la buelta de la hoja. Recopilado por Estevan Villalobos. Impresso en Lisboa com licencia Por Iorge Rodriguez Impressor Año de 1598. A costa de pedro Flores, mercader de Libros. Vendese en su tienda al Peloriño Velho junto ala rua nova. Lisboa 1598. (pág.39).

O vaso do unguento com a data de 1515
Grünewald coloca junto a Madalena o frasco de alabastro de perfume com que perfumou Jesus na casa de Simão. [1]
gr24fig. 26 – Pormenor da figura de Madalena destacando o vaso de unguento.
Grünewald seguiu provavelmente São Lucas: 37Ora certa mulher, conhecida naquela cidade como pecadora, ao saber que Ele estava à mesa em casa do fariseu, trouxe um frasco de alabastro com perfume. 38Colocando-se por detrás dele e chorando, começou a banhar-lhe os pés com lágrimas; enxugava-os com os cabelos e beijava-os, ungindo-os com perfume. (Lc. 7:37-38).
E no Evangelho segundo S. Mateus é precisado o local do acontecimento: Estando Jesus em Betânia, em casa de Simão, o leproso, aproximou-se dele uma mulher trazendo um frasco de alabastro de perfume precioso, e pôs--se a derramá-lo sobre a cabeça de Jesus, enquanto ele estava à mesa. (Mt. 26,6-13). [2]

Note-se que o episódio narrado por Mateus acontece em casa de Simão, o leproso, um enfermo como muitos dos que estão no hospício de Issenheim.
Daí a figuração do frasco com o unguento purificador.
Embora nestas passagens da Bíblia não se refira que essa mulher era Maria Madalena, a tradição poética assim o confirma.
O frasco de alabastro de perfume que figura no retábulo tem a particularidade de aí ter inscrita a data de 1515 que se tomou como a data da elaboração da pintura.
gr25compfig. 27 – Pormenor do vaso de unguento com a data de 1515.
A personagem de Madalena e o episódio do lavar os pés e perfumar Cristo a partir do século XVI consolida-se e é evocado na poesia aos longos dos séculos seguintes.
António Abreu por volta de 1579 referindo Maria Madalena evoca o unguento:
Com Alabastro de precioso unguento
Na casa de Simão Maria entrou
E sobre Jesu todo o derramou,
Lagrimas aos pés seus chorando cento
. [3]
E Francisco da Costa num soneto de 1591:
Ó lagrimas d’amor taõ poderosas,
que o peito do Senhor enternecestes,
pois com outras mostrou quanto o movestes
a obrar, por vos, cousas milagrosas!


Ó culpas pello unguento tão ditosas
com que o Mestre as curou que vós lhe destes!
Ó cabelos belissimos, celestes,
que servistes de toalhas amorosas!


Quando Simão, de immunda, vos comprende;
quando Marta vos nota, de ociosa,
quando Iudas de prodiga vos chama,


Por vós Iesu responde e vos defende,
e de falsa justiça, logo, os groza.
Olhai bem, se o amais, como vos ama!
 [4]
E do mesmo modo Esteban Villalobos:
Y fue tan abundante la avenida
de aquellos dos arroyos caudalosos,
que com tener los pies el Rey devida
de tanto andar descalço polvorosos,
quedaron com el agua alli vertida
puríssimos, y blancos, y hermosos,
y com precioso unguento los ungia
cuyo olor por la casa transcendia.
[5]

E também de Esteban Villalobos:
Acuerdaste por dicha de haver visto
lo que encarece el Evangelio santo
se una mala mujer que lavo Christo
los santos pies com doloroso llanto,
y unguento de valor y olores mixto
(que en todo aquel lugar trascendio tanto)
com mano liberal derramó en ellos
despues que los limpio com sus cabelos? 
[6]
Já no século XVII, Diogo Mendez Quintella, prosseguindo o culto de Maria Madalena evoca o unguento:
Este unguento que agora assi derrama
era aquelle; com que antes accendia,
de quantos a querião ver, a chama,
que ella mais em seu peyto arder sentia:
com elle tinha untada tanta fama,
que todo o amante em si mais convertia,
mas agora que já mais cae nisto,
os pés, que os pobres são, unta de Cristo.
[7]


E o culto de Santa Maria Madalena continua pelo século XVIII com Soror Madalena da Glória que lhe dedica  um soneto onde refere o aromático unguento:
De finas perlas guarneciò Maria
El de su amor mas extremoso invento
Llamas mesclando de vital aliento
Que el coraçon en largrimas vertia.


A los pies de JESU con acción pia
Derrama el aromatico unguento
Fragancia respirando el aposento
A la embidia recuerda, que dormia.


Vertido el Nardo, a Judas le parece
Para desperdiciado grande el precio
Y luego de ambicioso se enfurece


Maria, que de amar solo hace aprecio,
A JESUS en la Uncion el alma ofrece
Ya todo lo de mas hace desprecio.
[8]
E o mito continua na poesia no século XX com António Patrício:
Unge-me de perfumes, minha amada,
Como certa Maria de Magdala
Ungiu os pés d'Aquele cuja estrada
Só começou para além da vala.
[9]

[1] Como no referido Calvário do painel central do tríptico de Frei Carlos de 1520/30 do Museu Nacional de Arte Antiga, já aqui referenciado. (Anexo ilustração 4).
[2] A cena está representada numa iluminura atribuída a António de Holanda, Sta. Maria Madalena. Fólio 286 verso. Livro de Horas1517/1551, iluminura em pergaminho 14, 2 x 10, 8 cm. Museu Nacional de Arte Antiga. (Anexo ilustração 5).
[3] António de Abreu o Engenhoso, À Madalena c.1579 in Conquista, Antiguidade, e Nobreza Mui Insigne, e Inclita Cidade de Coimbra, escritas por Antonio Coelho Gasco, e Obras Inéditas de António Abreu, Amigo, e Companheiro de Luiz de Camões no Estado da India. Offerecidas ao Muito Alto e Poderoso Senhor D. João Principe regente. Por António Lourenço Caminha, Professor Regio de Retorica, e Poetica. Impressão Regia. Lisboa Anno 1805. (pág. 14).
[4] Francisco da Costa, LXXXIIII, Suma da Vida e Trânsito de Madalena,  poema 3 In Cancioneiro chamado de D. Maria Henriques, (1591), Domingos Maurício Gomes dos Santos, editor, Agência Geral do Ultramar, Lisboa 1956, pág. 257)
[5] Esteban de Villalobos, Breve Svmma de la admirable conversion y vida de la gloriosa Magdalena. En estancias sacada a luz por Estevan de Villalobos. In Primera Parte. Del Thesoro de Divina Poesia donde se contienen varias obras de devocion de diversos autores, cuyos títulos se veran a la buelta de la hoja. Recopilado por Estevan Villalobos. Impresso en Lisboa com licencia Por Iorge Rodriguez Impressor Año de 1598. A costa de pedro Flores, mercader de Libros. Vendese en su tienda al Peloriño Velho junto ala rua nova. Lisboa 1598. (pág.40).
[6] Esteban de Villalobos, Breve Svmma de la admirable conversion y vida de la gloriosa Magdalena. En estancias sacada a luz por Estevan de Villalobos. In Primera Parte. Del Thesoro de Divina Poesia donde se contienen varias obras de devocion de diversos autores, cuyos títulos se veran a la buelta de la hoja. Recopilado por Estevan Villalobos. Impresso en Lisboa com licencia Por Iorge Rodriguez Impressor Año de 1598. A costa de pedro Flores, mercader de Libros. Vendese en su tienda al Peloriño Velho junto ala rua nova. Lisboa 1598. (pág. 51).
[7] Diogo Mendez Quintella, Conversam, e lagrimas da Gloriosa Santa Maria Magdalena, & outras obras Espirituaes. Canto Segundo est. 63. Composta pelo Licenceado em Canones & Sacerdote Diogo Mendez Quintela. Em Lisboa, com todas as licenças necessárias, Impressa por Vicente Alvarez. Anno 1615. (pág.25).
[8] Soror Madalena da Glória, Soneto (1742), in Orbe Celeste Adornado de Brilhantes Estrelas, e dois ramilhetes: Hum colhido pela consideração outro pelo divertimento, Officina de Pedro Ferreira, Lisboa 1742). (pág. 193).
[9] António Patrício (1878-1930), Unge-me de Perfumes (1911). In A Águia, nº.10, 1ª. série. Rua da Alegria 218 Porto Julho 1911. (pág.12).

1.1.2. São João Baptista
À esquerda de Cristo na Cruz e à direita para o espectador, Grünewald ressuscita São João Baptista já que ele não participou do drama da Crucificação visto ter sido decapitado por ordem de Herodes no ano 29, e torna-o uma testemunha lembrando a sua profecia.
gr26compfig. 28 – Pormenor de João Baptista com o indicador da mão direita esticado apontando para Cristo, e com o Cordeiro aos pés.
Grünewald coloca S. João junto a Cristo seguindo Dante:
così di contra quel del gran Giovanni, che sempre santo ‘l diserto e ‘l martiro sofferse, e poi l’inferno da due anni; [1]
Está de pé, tendo na mão esquerda uma Bíblia cujas páginas brancas e iluminadas mostram que a luz só pode vir do Livro aberto.
Na mão direita em que o pintor aumentou, de uma pensada e exagerada dimensão, o dedo indicador com que João aponta Cristo, dando sentido à inscrição ILLUM OPORTET CRESCERE. ME AUTEM MINUI, (Ele é que deve crescer, e eu diminuir) do Evangelho segundo S. João (Jo. 3.30), evocando, com o último dos profetas, a passagem do Antigo ao Novo Testamento.
S. João Baptista é celebrado no dia 24 de Junho suposta data do seu nascimento, no solstício de verão, data a partir da qual os dias começam a diminuir. Jesus cujo nascimento é comemorado no dia 25 de Dezembro, no solstício de Inverno quando os dias aumentam.
gr27fig. 29 – Pormenor do indicador de S. João Baptista e da inscrição.
A cabeça de S. João Baptista que alguns apontam como um autorretrato de Grünewald.
gr28compfig. 30 – Pormenor da cabeça de S. João Baptista que alguns apontam como um auto-retrato.
Compare-se com o esboço que se tomou como um autorretrato.
gr5fig. 31 – Estudo para a cabeça de S. João Baptista.
O Cordeiro
Aos seus pés está o cordeiro com a Cruz e o Cálice, Então, pondo o olhar em Jesus, que passava, disse: “Eis o Cordeiro de Deus!” (Jo.1.36).
O cordeiro derrama o seu sangue num cálice, que remete para a eucaristia.
gr29compfig. 32 – Pormenor do Cordeiro de Deus.

[1] Dante Alighieri (1265-1321), A Divina Comédia. Paraíso, tradução de Vasco Graça Moura. Quetzal Editores, Lisboa 2011. (Paraíso Canto XXXII v.31-33).
[……………………………………………..já no
lado em frente se senta o grande João:
sofreu santo o deserto e o martírio
sempre, e dois anos de infernal prisão;]


1.2. Os Painéis laterais
Nos painéis laterais os santos protectores contra as doenças, Santo Antão a doença então chamada de fogo de Santo Antão [1] e S. Sebastião o combatente contra a peste.
De notar que Rogier van der Weyden também representou os dois santos em grisalha nos painéis exteriores do Juízo Final do Hospício de Baune.
1.2.1. Santo Antão
Santo Antão, o patrono da Ordem Hospitalar dos Antoninos, está figurado com um bastão em forma de TAU a cruz da Ordem, a cruz decapitada (crux comissa, crux patibulata) e que os franceses designam, precisamente, por cruz de Santo Antão (croix de Saint-Antoine). É uma cruz egípcia, evocando as origens de Santo Antão, e também evoca a muleta dos amputados pela doença do Fogo de Santo Antão.
Com um manto vermelho, que lhe dá um ar algo majestático, é uma presença serena face ao demónio negro cuspindo fogo no canto superior. Segundo Atanásio depois de ter derrotado o demónio, Antão não relaxou, e o demónio, depois de vencido, não deixou de lhe colocar armadilhas. Ele rondava à sua volta como um leão à procura da oportunidade de surpreender a sua presa. [2]
Santo Antão tem uma barba que se divide em duas partes como na sua representação tradicional.
De pé apoia-se numa base onde estão esculpidas diversas plantas.
gr30fig. 33 - Santo Antão. Painel lateral (232 x 75 cm.).

gr31compfig. 34 - Pormenor do rosto de Santo Antão

gr32compfig. 35 – Pormenor da figura diabólica que assoma à janela.
As Armas que figuram perto dos pés de S. Antão são de Guido Guersi (?-1516), o abade dos frades de Issenheim.
gr33fig. 36 – Pormenor da base em que se ergue Santo Antão.
1.2.2. São Sebastião

São Sebastião, o santo protector da peste, está representado na sua imagem tradicional.
Está de pé, envolto num manto vermelho, junto da coluna e com as flechas do martírio já que se pensava que a doença se propagava por flechas invisíveis.




gr34fig. 37 - S. Sebastião junto da coluna. Painel lateral (232 x 76,5 cm.).
Tem as mãos suplicantes e torcidas, um gesto que evoca resignação e piedade, e o rosto voltado para a esquerda. Na janela sobre uma paisagem esvoaçam anjos trazendo a sua coroa.
gr35compfig. 38 – Pormenor de S. Sebastião e da janela.
gr36fig. 39 – Pormenor dos Anjos com a coroa de S. Sebastião
A base com plantas em que se ergue S. Sebastião perto da qual está o monograma de Grünewald.
gr37fig. 40 – Pormenor da base onde se ergue S. Sebastião.

1.3. A mísula inferior
gr38fig. 41 – A mísula inferior. (67 x 341 cm.).
Segundo S. Marcos: 46Este, depois de comprar um lençol, desceu o corpo da cruz e envolveu-o nele. Em seguida, depositou-o num sepulcro cavado na rocha e rolou uma pedra sobre a entrada do sepulcro. 47Maria de Magdala e Maria, mãe de José, observavam onde o depositaram. (Mc. 15,46-47).
Grünewald representa a cena aproveitando a mísula inferior, colocando apenas três personagens ajoelhadas. [3]
Do lado direito aproveitando a horizontalidade da composição S. João segura Cristo, cujo corpo está estendido sobre um lençol.
Maria está ajoelhada, vestida e com as mãos entrelaçadas como na Crucificação, lamenta a morte de Jesus.
gr39fig. 42 – Pormenor do painel direito da mísula.

gr40compfig. 43 – Pormenor de Cristo na Deposição no túmulo.

gr41fig. 44 – Pormenor de Maria na Deposição no túmulo.
Do lado esquerdo Madalena ajoelhada aos pés de Cristo, junto ao túmulo, vestida e com as mãos enlaçadas como no painel central. Aos pés de Cristo a coroa de espinhos.
gr42fig. 45 – Pormenor do painel esquerdo da mísula.

gr43fig. 46 – Pormenor de Maria Madalena.
Ao fundo por trás de Madalena uma paisagem com um rio e uma montanha simbolizando a Montanha do Génesis.
gr44compfig. 47 – Pormenor da paisagem com o monte e o rio.

[1] O ergotismo ou Fogo de Santo Antão é uma infeção provocada por um fungo (Claviceps purpurea) que se desenvolve na cravagem do centeio.
[2] Vie de Saint Antoine par Saint Athanase. Traduction littérale di texte grec par M. Charles De Rémondage. Imprimerie Émile Protat. Macon 1874. (pág.15). [...après avoir vaincu le démon, Antoine ne se relâcha pas, et le démon, après sa défaite, ne cessa pas de lui dresser des embûches. Il rôdait autour de lui comme un lion cherchant l'occasion de surpendre sa proie.]
[3] De um modo semelhante, mas numa composição invertida, a Descida da Cruz do século XVII de Domingos Lopes, óleo s/tela 89 x 218 cm. do Museu de Aveiro, onde também figuram apenas as três mesmas personagens. (Anexo ilustração 6).
Nota – Todos os sublinhados e traduções são da minha autoria excepto se referenciados.
Continua com o retábulo aberto Anunciação, Natividade e Ressurreição
gr45b



































































































































































































































































quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Natal de 2017



Para todos umas

Boas Festas e um Feliz Natal

Gregório Lopes (c. 1490 - 1550), Natividade do Retábulo do Convento do Paraíso1527. Óleo s/ madeira de carvalho. 128,5 x 87,5 cm. Museu Nacional de Arte Antiga.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

O Porto através de uma Panorâmica de c.1870 7 (3)

Parte V - O Jardim da Cordoaria de Émile David

O projecto de Edward Buckton Lamb, apesar da sua indiscutível qualidade não foi concretizado. Provavelmente porque no início dos anos 60 do século XIX a cidade e a Câmara Municipal estavam empenhadas na realização da Exposição Internacional Portugueza para a qual se construiu o Palácio de Cristal e os seus jardins, e ainda porque a proposta de Lamb teria um custo incomportável para as finanças da Câmara.
cd30fig. 35 - A Praça da Cordoaria na Planta de Perry Vidal de 1865.
Por isso Alfredo Allen (1828-1907), um dos promotores do Palácio de Cristal e que então ocupava o cargo de Vereador da Câmara Municipal, encarregou o prestigiado autor dos jardins do Palácio de Cristal o alemão Émile David (1839-1873), da elaboração de um novo projecto que foi apresentado e aprovado pela Câmara Municipal em 1865 e construído nos anos seguintes.
cd31fig. 36 – O Projecto de Émile David 1866. Apresentada à Câmara por Alfredo Allen. In O Tripeiro, 1910.
cd32fig. 37 - Cordoaria (Campo dos Martyres da Patria) na Planta de Telles Ferreira de 1892.
Deve referir-se que as transformações que contemporaneamente se realizam no Paris do Segundo Império com as intervenções de Jean-Charles-Adolphe Alphand (1817-1891), de arborização dos boulevards e a criação dos parques e jardins, tiveram também influência no ajardinamento da cidade do Porto.
Entre 1864 e 1867, para coincidir com a Exposição Universal de Paris que então se realiza, é criado o Parc des Buttes-Chaumond, que entre os jardins então realizados em Paris, e apesar da sua muito maior dimensão e da criação de relevos mais acentuados, tem algumas semelhanças com o contemporâneo jardim do Campo dos Mártires da Liberdade.
cd33fig. 38 - Adolphe Alphand, Parc des Buttes Chaumont 1867. Plan. In Les Promenades de Paris.
Neste jardim de Paris destacam-se alguns elementos que o Jardim da Cordoaria também apresenta: o jardim fechado por uma grade de modo a permitir a visibilidade entre o exterior e o interior; um lago com uma ilha; os rochedos formando a gruta e a cascata; as veredas serpenteantes; os bancos e as estátuas, e o chalet café-restaurante.
Como já se afirmou, na realização do Jardim da Cordoaria, Émile David (1839-1873) foi acompanhado por José Marques Loureiro (1830-1898), jardineiro e horticultor, proprietário do Horto das Virtudes e do Jornal de Horticultura Practica.
Este periódico onde civicamente participavam gratuitamente muitos cidadãos com a sua opinião crítica - que contava na construção da cidade - irá acompanhar entre 1870 e 1873, entre muitas outras referências à jardinagem e à horticultura, a construção do jardim.
Foi o seu redactor José Duarte de Oliveira Júnior (1848/1927) autor de diversas crónicas nesta publicação.
Em 1870 José Duarte de Oliveira Júnior, na sua Chronica do Jornal de Horticultura Practica após referir um conjunto de plantações no jardim adverte:
Muito folgaremos que o “Jardim do Campo dos Martyres da Pátria” continue a merecer a solicitude da municipalidade portuense e que o descuido, tão tenaz perseguidor de tudo o que é bom e útil entre nós, não invada aquelle terreno que tão vantajosamente pôde ser aproveitado em recreio para o publico e em interesse do desenvolvimento hortícola. [1]
Mas logo no ano seguinte o mesmo José Duarte Oliveira Júnior, cujos receios se revelaram fundamentados, escreve uma feroz crítica à actuação da Câmara no jardim, referindo duas cartas de leitores do Jornal de Horticultura.
Não se pode ver sem repugnância a triste transformação porque está passando o Jardim dos Martyres da Pátria, confiado a homens incompetentes, que poderão muito bem conhecer as exigências de um quintal burguez, mas que de modo nenhum compreendem os principios da horticultura nem as bellezas da jardinagem, arte sempre cultivada com esmero em todos os tempos.
Não ignoram os nossos leitores que o delineador do Jardim dos Martyres da Pátria foi o snr. Emilio David, distincto paisagista, e que deixou o seu nome gravado nos jardins do Palácio de Cristal.
O snr. Emilio David apresentou-nos um d’esses jardins de que a Inglaterra e a Allemanha nos offerecem o modelo, e cujas bellas irregularidades não são mais que uma perfeita imitação da natureza. A sua obra, porem, perdeu completamente o cunho que lhe soubera imprimir. Quem entra hoje no antigo largo da Cordoaria pensa que tudo aquillo é apenas um brinquedo de creanças.
Por todas as partes de aquelle recinto começarão provavelmente a surgir as famosas cabelleiras (perruques), que se encontravam nos jardins do tempo de Luiz XIV e de que nos fallam alguns auctores!
Nada porem mais feio e mais ridículo!
E' para sentir que a nossa Camará, ou o vereador a quem está incumbido o respectivo pelouro, não escolha um individuo, a quem sem vergonha se possa dar o título de “jardineiro dos jardins públicos do Porto.” Ninguém ignora que a principal, senão a primeira belleza de uma cidade, consiste no mimo de seus jardins.
São um elemento de recreio, e, o que é mais, um indispensável elemento de hygiene.
Pensávamos que o Jardim da Cordoaria viria satisfazer em parte uma exigência tão justa, mas vemos que perfeitamente nos enganamos. E' preciso que nos não envergonhemos aos nossos próprios olhos e aos olhos dos estrangeiros. O Porto é uma cidade que tem dado sempre signaes de vida e é por isso necessário que compreenda a civilisação n'aquillo que ella tem de mais útil e agradável.
Era abono da nossa opinião trasladaremos as duas seguintes cartas que ultimamente nos dirigiram dous respeitáveis cavalheiros. [2]

[Nota - Uma das cartas é de Ed.mond Goeze (1838 — 1929), responsável pelo Jardim Botânico de Coimbra de 1866, e do jardim da Escola Politecnica de Lisboa concebido em 1873 e inaugurado em 1878. A outra datada de 22 de Julho de 1871 é de Fulgêncio José Machado (?-?).]
Em 1873 também Joaquim de Carvalho Azevedo Mello e Faro, da Casa da Soenga situada em S. Martinho de Mouros no concelho de Resende, escreve para o Jornal de Horticultura Practica uma carta descrevendo o jardim e apontando alguns pormenores com que não concorda, sugerindo algumas soluções para o Jardim do Campo dos Martyres da Pátria.
N’este jardim, plantado ha poucos annos, ainda as plantas estão pouco desenvolvidas; o risco, e disposição d'elle são ao gosto moderno, e o jardineiro, que o delineou soube aproveitar muito bem a área d'este passeio, abandonando o antigo gosto dos jardins symetricos. As árvores, que orlam as avenidas principaes deviam ter menor distancia de umas às outras, para que assombrassem melhor os passeios, pois sendo este local desaffrontado, principalmente do lado do poente, fica muito exposto ao sol nas tardes do estio, que é sempre ardente até o seu occaso, privando os concorrentes de irem mais cedo gosar os divertimentos, que nas tardes de verão se facultam ao publico.
Esta arborisação deveria ser feita com árvores de folha caduca, para que no inverno não vedem aos passeantes o sol que n'aquella estação tanto se aprecia. Muito conveniente seria, demais d'isso, que os passeios fossem mais altos no centro (abaulados) porque d'esta forma as águas da chuva correm mais facilmente aos lados, e seccam com promptidão, não causando lamas.
Os canteiros deviam ter melhores relvas e ser guarnecidos de plantas próprias para bordaduras, como são: as Potentillas, Verbenas, Cinerarias, Violetas, e outras.
Ainda não possue este jardim grande variedade de plantas, e bom seria, que lhe plantassem arbustos escolhidos nas bellas collecções que hoje possuímos, e que prosperara perfeitamente ao ar livre. [3]


cd34fig. 39 – O Jardim legendado na planta colorida de 1892.
Legenda
Jardim
1 – Entrada sudoeste
2 – Entrada nascente
3 – Entrada pela Alameda do Olival
4 – Entrada norte
5 – Alameda nascente (dos plátanos)
6 – Coreto (Pavilhão de Música)
7 – Alameda sul (Passeio da Cordoaria)
8 – Chalet (Café Chaves)
9 – Lago
10 – Belvedere, gruta e cascata
V – Veredas
Envolvente
A – Hospital de Santo António
B – Quarteirão ainda existente (dito do Piolho)
C – Quarteirão demolido com a conclusão da Academia
D – Academia (hoje Reitoria)
E – Igreja de N. Sr.a da Graça
F – Mercado do Anjo
G – Largo do Olival
H – Tribunal e Cadeia da Relação
I – Casa de Thomas Sandeman
J - Igreja de S. José das Taipas (Capella das Almas)
K – Asilo dos Expostos
L – Mercado do Peixe
M – Quarteirão ainda existente


cd35fig. 40 - A estrutura viária do jardim em 1892.

O Jardim da Cordoaria (então oficialmente Campo dos Martyres da Patria), com um perímetro de cerca de 552 metros e uma área de cerca de 18 000 m2, mantinha do projecto de Edward Buckton Lamb alguns dos seus elementos embora desenhados de modo diverso.
O ambiente do jardim da Cordoaria na segunda metade do século XIX
O jardim rapidamente se converte no jardim da moda da burguesia portuense em detrimento do vizinho jardim do Palácio de Cristal, como recorda Firmino Pereira no seu O Porto d’Outros Tempos.
Mas, aberto o jardim que se destinava ao povo, logo dele se apossaram as elegantes do burgo, que o preferiram aos do Palácio, mais distantes e onde só se entrava, pagando. Aos domingos e dias festivos, e às quintas-feiras, à noite, o alegre recinto era tomado de assalto pela burguezia tripeira, que se apossava da avenida fronteira ao coreto. Os arruamentos abertos em volta do lago ficavam á disposição das costureiras, das creadas de servir, dos oficiaes de ofício, dos soldados da municipal. Eram territórios separados. E o que é deveras curioso é que, á entrada, cada um tomava o seu logar, como num teatro...

cd36fig. 41 – Os Jardins do Palácio de Cristal e da Cordoaria na planta de 1892.

E Firmino Pereira prossegue reproduzindo um texto em prosa rimada de um cronista (talvez ele próprio?).

Aí por 1870, um cronista faceto troçava do jardim e da gente fina que o frequentava na seguinte pitoresca página de prosa rimada, então muito em voga:
“A Cordoaria está uma bisarria! Não tem bucho nem repucho mas é o cartucho do luxo, o passeio do aceio, a estância da elegância. O lago é uma formosura d'agua pura em forma de ferradura, ha quem embirre com tal e julgue mal da esperteza municipal. Aos domingos, apesar dos pingos, acha-se repleto o jardim seleto da melhor roda, da gente á moda, da aristocracia genuína, do bom-tom, das botinas à Benoiton *, de paspalhões enfiados em jaquetões que deixam ver o que não se pôde dizer, de negociantes barrigudos dentro de enormes sobretudos, de soldados espartilhados, de damas com vestidos de escamas e enormes penteados que parecem esguedelhados, cintas de dedal, tacões de metal, chapéus de general, etc. e tal…
Quem gosta de tafularia ** vae á Cordoaria! Quanto a chapéus, enchem trinta museus. O chapéu Margarida (obra garrida) é muito elegante. O rapazio chama-lhe tunante***. Como mais louçã é a pluma á Buridan ****. O chapéu Napoleão primeiro é um tanto guerreiro mas tem o ar feiticeiro. Parece um tinteiro. O tirolez já vae sendo burguez mas é lindo duma vez, o Patty c'est bien joli.”


[Notas sobre o texto:
*Botinas à Benoiton - Moda francesa do Segundo Império, criada a partir dos trajes das personagens da peça de teatro La famille Benoiton, comédia em 5 actos de Victorien Sardou (1838-1908). Representada em Paris no Théâtre du Vaudeville em 1865.
cd37fig. 42 - M.lle Manvoy, no papel de Jeanne na peça de teatro La famille Benoiton, de Victorien Sardou (1838-1908). Litografia cor 20 x 14,5 cm. Estampa 931 de Galerie dramatique, edição Hautecoeur frères, 1965. BnF.
** tafularia - exuberância, exagero, janotice.
*** tunante - malandro, tratante.
**** a pluma á Buridan - Buridan é uma personagem da peça La Tour de Nesle de Alexandre Dumas e Frédéric Gaillardet (1808-1882) representada em 1832 em Paris, trajando à moda do século XIV com um chapéu de pluma.
A personagem é baseada em Jean Buridan (1300-1358) um filósofo medieval cuja lenda diz ter sido lançado ao Sena por denunciar os escândalos da corte.
A peça La Tour de Nesle (1832) surge em Portugal referenciada no Archivo Theatral ou collecção selecta dos mais modernos dramas do Theatro Francez 1838, com uma tradução do Conde de Farrobo e terá sido representada no Teatro da rua dos Condes entre 1835 e 36.
Também o poeta François de Montcorbier ou François des Loges conhecido como François Villon (1431-desaparecido em 1463) no conhecido poema Ballade des Dames du temps jadis, refere Buridan:
Semblablement où est la reine,
Qui commanda que Buridan
Fût jeté en un sac en Seine
Mais où sont les neiges d'antan?


Este poema é sobretudo conhecido por ter sido magistralmente musicado e cantado por Gerges Brassens (1921-1981).]


***** o Patty c'est bien joli. Refere-se à grande cantora lírica Adelina Patti (1843-1919), e aos chapéus que usou em palco ou fora dele.
cd38fig. 43 - Friedrich August von Kaulbach (1850-1920) Retrato da cantora Adelina Patti 1871, óleo s/tela 58 x 47 cm.Col. particular.

Em 1872 eram publicitados Chapéus Modelos acabados de receber de Parisno jornal O Commercio do Porto.
cd39fig. 44 - O Commercio do Porto de Terça-Feira 26 de Outubro de 1872


Recorrendo a uma pintura de Adolph Menzel, de 1867, podemos observar o ambiente de um jardim público em Paris no Segundo Império, e imaginar o que poderia ser o jardim da Cordoaria nos anos 70 do século XIX.
Aqui também do lado esquerdo as classes sociais menos favorecidas e à direita, ao longo da alameda, a burguesia triunfante e endinheirada do Segundo Império.
cd40fig. 45 - Adolph Friedrich Erdmann von Menzel (1815-1905), Après midi au Jardin des Tuileries 1867 óleos/tela 49 x 70 cm. National Gallery Londres.


E Firmino Pereira no seu texto lembra ainda que a …Cordoaria foi, efetivamente, o jardim do bomtom. Ruidoso e festivo nos dias de descanso, à semana outro era o seu aspeto, e esse indubitavelmente mais interessante. Pela avenida principal, ao resto das tardes estivaes, apareciam, para um cavaco ameno, as figuras de mais notoriedade e destaque do burgo portuense. (…) Velhotes bem jantados, o colete desabotoado, alastrados pelos bancos contavam as suas vidas, sob o verde docel dos olmos. Literatos e jornalistas discutiam arte, politica, teatro, mulheres, despejando copos de cerveja.

cd41
fig. 46 - Honoré Daumier (1808-1879) Les buveurs de bière, 28 x 37 cm. Bei Camentron Paris in Erich Klossowski, Honoré Daumier. R. Piper & co., Verlag München 1908.
E Firmino Pereira finaliza:
E quando a sineta tocava, ao bater das Trindades, todos se erguiam e lentamente se retiravam, no regalo duma digestão bemfeita e duma alegre e divertida cavaqueira. [4]


Na versão de Daumier.
cd42
fig. 47 - Honoré Daumier Les Parisiens 1852.
Ou na versão de Rafael Bordallo Pinheiro.
cd43

fig. 48 – Rafael Bordallo Pinheiro ( 1846-1905), em O António Maria, de 11 de Março de 1880, n.os 31 a 83,(pág.92).

[1] José Duarte de Oliveira Júnior, Chronica in Jornal de Horticultura Practica. Proprietário José Marques Loureiro, Redactor Oliveira Junior. Typographia Lusitana 84, rua das Flores. Porto 1870. (Vol. I, pág.30).
[2] José Duarte de Oliveira Júnior, Jardins Publicos in Jornal de Horticultura Practica. Proprietário José Marques Loureiro, Redactor Oliveira Junior. Typographia Lusitana 84, rua das Flores. Porto 1871. (Vol.II, pág. 160 a 162).
[3] Joaquim de C. A. Mello e Faro, Jornal de Horticultura Practica. Proprietário José Marques Loureiro, Redactor Oliveira Junior. Typographia Lusitana 84, rua das Flores. Porto 1872. (Vol.III, pág. 108).
[4] Firmino Pereira, Sócio correspondente da Associação dos Escritores e Artistas de Madrid, O Porto d’outros tempos. Notas históricas, Memórias, Recordações. Livraria Chardron, de Lelo & Irmão, Rua das Carmelitas, 144. Porto 1914. (pág. 90 e 91).


A grade e a entrada principal do Jardim da Cordoaria

Mas para além dessa descriminação de classes no interior do jardim, a grade que contorna todo o jardim controlava as entradas, e o facto de ser um jardim público não o tornava acessível a todos, o que provocou viva polémica nas páginas daquele Jornal.
O passeio está interiormente fechado por uma bonita sébe de catrapeiro, e exteriormente por uma grade. [1]
Embora reduzida a um simples portão, mantém-se a entrada principal a sudoeste, em frente da igreja de S. José das Almas.
cd44fig. 49 – A entrada sudoeste do Jardim e a grade que o circunda. 1870.
De facto, em 1873, enquanto prossegue a plantação e manutenção do jardim, inicia-se a contestação à descriminação dos que pretendem frequentar o jardim.
José Duarte de Oliveira Júnior escreve na sua Chrónica: Com o princípio do anno parece que veio a ideia de melhorar os jardins públicos da cidade. No dos Martyres da Pátria fizeram-se certas pequenas modificações que applaudimos, e plantaram-se algumas Camellias cujas flores, como verdadeiras rainhas do inverno, poderiam deleitar os olhos dos que vivem em incessante labutar e que só têem os dias sanctificados para repousar o espirito.
Mas pobre d'essa classe laboriosa que trabalha desde o despontar da aurora até que chegam as trevas da noute, para ganhar uma exigua quantia que, querendo viver honestamente, nem sequer lhe chega para as suas modestas refeições!
São desgraçados; é-lhes portanto interdicta a entrada nos passeios públicos, nos jardins que tanto se sustentam á custa dos endinheirados como á dos proletários! É, na verdade, uma providência digna da nossa civilisação, isto é, egoísta e insensata.
Na epocha em que o snr. Visconde de Villar Allen fazia parte da Camará municipal portuense e tinha a seu cargo o pelouro dos jardins, ponderou aos seus colegas que, em imitação de todas as cidades onde tem penetrado a luz do progresso, era necessário que, quando não todos, ao menos alguns dos jardins da cidade fossem franqueados ao povo, classe que mais carece d'este recreio.
Este pensamento liberal, esta proposta que não tinha o resaibo de feudalismo, não foi aceite pelos collegas do snr. Visconde de Villar Allen. Deverão ser louvados?
Consultem as suas consciências, que ellas responderão por nós.
Vae o operário, que, se nos dão licença, não é anima vilis, antes um cidadão prestantissimo á sociedade, quando laborioso e honrado, vae elle a entrar n'um passeio que por derisão se chama público.
Quer desfadigar-se das suas canceiras, quer desfructar a sua quota-parte nas regalias, visto que não o dispensaram da sua quota-parte nos encargos.
O que fazes, desgraçado? Não reparas que o teu magro salário não te deixou subir do tamanco ou da chinela para hombrear com o alto cothurno?
À porta do passeio, similhante ao archanjo do paraiso, brandindo a espada de fogo, lá está o guarda municipal, terrível d'auctoridade. “Alto! Para traz!” Lhe brada elle, e o operário retira-se, ou, se recalcitra, é expulso d'aquelle recinto a empurrões, como por mais de uma vez temos visto.
Tem razão o municipal e mais a autoridade e também a lei que alli o collocaram.
Onde se espaneja a femme du demi monde, o fátuo, o néscio, o ocioso, não nos dirão o que vae lá fazer o homem do trabalho?
Fiquemo-nos n'esta interrogação, em quanto aguardamos que seja expungida do código de posturas municipaes tão obnoxia e anachronica prohibição.
Não aperta assim o fiado quem tem o maior interesse em que elle não rebente.
Entenda-nos quem puder. [2]
E José Duarte de Oliveira Júnior em outra das sua Chronicas, evocando o Visconde de Villar d’Allen refere dois projectos que não se concretizaram a square em Camões e a fonte na praça Carlos Alberto e volta a referir o problema do acesso aos jardins ditos públicos lembrando os jardins de Paris, de Londres e do Egipto.
No Porto também ha falta de jardins públicos; e mui principalmente se tomarmos o adjectivo no seu próprio sentido.
Sem querermos offender os vereadores que têem tido a seu cargo o pelouro da jardinagem, é justo confessar que o snr. Visconde de Villar Allen prestou muito á cidade durante o tempo que administrou este ramo dos serviços municipaes.
E, senão, lancemos uma vista retrospectiva sobre o que se fez durante a vereação de que aquelle cavalheiro fez parte. Está bem patente, e portanto é inútil apontal-o. Além do que se deve á sua efficaz iniciativa, queria fazer uma square ou passeio recreativo em Camões, e outro na praça de Carlos Alberto, porém a camará objectou dizendo que o primeiro local estava destinado para um mercado e que no segundo havia ideia de brevemente se fazer uma elegante fonte.
Ha três para quatro annos que isto se dizia, e onde está o mercado do largo de Camões e a fonte da praça de Carlos Alberto?
Estão sem dúvida na imaginação dos architectos!
Sabemos que emquanto o snr. Visconde de Villar Allen esteve na camará municipal como encarregado do pelouro dos passeios públicos, recommendava que não se tolhesse a entrada a pessoa alguma, a não ser que viesse incommodar as outras pessoas com carretos, etc. E quando apresentou em camará a proposta para aquelles passeios de que acima falíamos, bem como do dos Martyres da Pátria, que felizmente se executou, foi sempre com ideia de que similhantes locaes, arborisados e ajardinados, fossem completamente acessíveis a todas as classes como os que ha nos paizes mais adiantados, onde os inspectores ou guardas não têem nada que ver com o calçar ou com o vestir do operário que, em muitas terras, no inverno anda de sabot e a quem nem por isso é interdicta a entrada.
Em Pariz, no parque Chaumont, no de Monceaux, no bosque de Boulogne, no de Vincennes, no jardim do Luxerabourg, e, se não estamos equivocados, também nas Tuileries; em Londres, em Hyde-Park, St. James's, Park, Victoria Park e outros, vê-se nas horas de descanço e em dias feriados o operário passeiar e descançar tranquillamente n'aquelles recintos para a manutenção dos quaes elle concorre com a sua quota-parte.
Entre nós diz-se que não se deve admittir nos jardins o proletário, ou, por outra, aquelles individuos que não trajarem com a precisa decência, sendo compellidos, no caso de quererem ter entrada, a trocar o seu sapato de couro e pau (tamancos) por o de couro só (cothurno).
E d'este modo civilisa-se a pobreza! Esta providência seria irrisória, se não fora cruel, porque, se um ou outro pôde sujeitar-se a taes exigências, muitos ha a quem não é possível satisfazer os preconceitos da sociedade mais endinheirada e que por consequência deveria ser mais illustrada e muito menos melindrosa.
Quizeramos inocular na ideia do proletário que para elle ser admittido n'um passeio público é mister que largue o seu trajo de trabalho; mas estamos longe de acceitar o modo como o querem compenetrar d'isso. Façam como o finado príncipe consorte da rainha de Inglaterra que fundou uma associação em Windsor, que dava prémios às farmilias pobres que mostrassem mais limpeza e melhor arranjo no interior das suas casinhas; às creadas e creados que tivessem melhor comportamento; às creanças que fizessem mais progressos nos seus estudos, etc, etc.
E' este o verdadeiro caminho a seguir se, querendo inplantar a valer a civilização no paiz; e emquanto não se colocarem os rails que devem servir para levar o comboyo do progresso a esse ponto — à civilisação — queremos que a camara municipal se resolva a pôr os jardins públicos francos a toda a classe de pessoas. Esta corporação é illustrada e deve, reflectindo, vêr que o seu procedimento é menos justo e popular.
Às linhas que se acabam de ler vamos juntar, como útil exemplo, uma noticiazinha de Mr. Delchevalerie do seu interessante folheto «Flore exotique du Jardin d'acclimatation, de Ghézireh» sob a epigraphe — Carácter democrático dos jardins no Egypto» e que transcrevemos em abono da opinião que sustentamos.
“Em todos os paizes civilisados a introducção dos vegetaes é objecto de uma predilecção geral, porque é ao mesmo tempo um elemento de hygiene, de divertimento e de recreio, uma arte útil e uma fonte de commercio e de progresso scientifico.
Hoje collecionam-se plantas nos jardins do mesmo modo que se fazem galerias de quadros, museus d’arte, etc. Os soberanos rodeiam os seus palácios com as producões mais raras do reino vegetal e o jardim de Ghézireh (Egypto) é um exemplo do que dizemos. As cidades têem um parque, um bosque nas suas visinhanças, e a maior parte d'ellas têem também umbrosos boulevards e squares.
A cidade do Cairo tem o jardim de Ezbékieh * e um grande numero das ruas já estão plantadas com árvores. Actualmente vae-se às pyramides sob a sombra produzida por uma immensa avenida plantada de Acácias Lebbek; pode-se visitar os subúrbios do Cairo, taes como, Ghyzé,
Choubrab, Abbassieh, Kobbeh, Velho-Cairo; e outros indo-se sempre por longas estradas cobertas por bem tractado arvoredo.
O governo de S. Alteza compreendeu bem o caracter democrático que era preciso dar aos jardins e aos passeios públicos e comprehendeu outrosim que o povo e os trabalhadores careciam de jardins onde podessem repousar.
As squares são pois os jardins de toda a gente e faz-se portanto todo o possível para as tornar bellas e attractivas.[3]
Confrontando agora o que succede no Cairo com o que se passa entre nós, sempre ousaremos perguntar, porque desejamos saber: Qual será a terra da mourisma, lá ou cá?
Que nos responda o bom senso. — Aconselhamos a leitura da seguinte carta que tracta de um assumpto sumamente importante para o paiz, como é a elaboração d'uma Flora. E, porém, principalmente o governo que deve occuparse d'elle, porque difficilmente haverá iniciativa particular que se atreva com uma obra de tanta ponderação. [4]
[Nota* - O jardim de Ezbékieh, no Cairo deve o seu nome a um general egípcio da segunda metade do sáculo XV. O jardim inicialmente apenas frequentado por europeus foi progressivamente nos anos 70 do século XIX aberto aos egípcios.
cd45
fig. 50 – Imagens do jardim de Ezbékieh, nos anos 70 do século XIX.

E Duarte de Oliveira Júnior na edição de Outubro de 1873 do Jornal de Horticultura retoma o assunto.

Por mais d'uma vez nos occupamos n'este jornal d'uma medida sobremodo absurda que a camará pôz em vigor logo em seguida á sahida do snr. Visconde de Villar Allen d'aquella corporação.
Não foi, porém, para lisongear este cavalheiro que aqui inscrevemos o seu nome, mas porque é bem patente que o bom desempenho de qualquer dos serviços que estão a cargo da municipalidade depende principalmente, senão quasi exclusivamente, dos conhecimentos especiaes que tem o vereador respectivo. Se não fossem pois os conhecimentos do ex-camarista visconde de Villar Allen e a sua muito boa vontade, não veria hoje o Porto a antiga Cordoaria transformada em espaçoso e bem delineado jardim.
O snr. Visconde entendeu que aquelle jardim devia de ser público na verdadeira accepção da palavra, mas os seus sucessores — que a não ser para lhe dar 0s foros de aristocrata, não sabemos para quê — pensaram differentemente e deram ínstrucções aos guardas para só franquearem aquelle recinto às botas de polimento ou de duraque*. Quer dizer que o legislador media as pessoas pelos pés.
Isto é repugnante n'uma cidade em que vemos tremular o pavilhão da liberdade, e já tem dado motivo a alguns conflictos.
A «Actualidade» escrevia ultimamente as seguintes linhas:
Convinha tornar bem publico e notório qual o systema de calçado com que é licito ou illicito entrar nos passeios públicos. É um pedido que fazemos á exc.ma camará, em nome de quem indo, ha pouco tempo, a entrar no passeio da Cordoaria, acompanhado d'uma ama que levava uma criancinha, e ia, segundo o costume das aldeãs, de meias e chinellas, teve de retroceder, por lhe vedar a entrada a sentinella que para isso tinha recebido ordens.
Saiba-se isto ao menos para governo de quem tem filhos e amas que os criam não ficar exposto a um vexame.
O pedido é sobremodo justo. Precisa-se de um edital em que se designe o calçado com que o desprotegido da fortuna e sem meios alli pode ir repousar alguns instantes depois de ter finalisado o seu trabalho.
Recommendamos no entretanto á Exm.ma camará que na redacção do referido edital tenha em vista que o pobre é o que mais carece dos passeios públicos. Os abastados como v. Exc.a téem os seus palácios e os parques, e aquelle, a maior parte das vezes, nem sequer tem uma colcha para se cobrir nas noutes de aspérrimo dezembro.
No estrangeiro construem-se squares de propósito junto dos grandes estabelecimentos fabris para recreio dos operários, que nem envergonham as arvores nem as pessoas que se sentam debaixo d'ellas a gosar-lhes a sombra.
Estará por ventura a camará municipal tão possuída de leituras bíblicas, que queira fazer dos passeios públicos paraizo dos Adões peccadores? N'esse caso, para haver conformidade, deve substituir o junco do zelador ou o sabre do municipal pela espada fulminante do archanjo.
Na Suissa e na Bélgica os jardins estão confiados á vigilância do povo. Não ha necessidade de guarda pretoriana às portas. Não poderia acontecer o mesmo entre nós? Não seria o povo digno d'essa confiança?
No caso negativo lastimamos o facto, tanto pela camara, como pelo povo. [5]
[Nota * - Botas de duraque - botas de tecido de lã ou de algodão a imitar o cetim.]

[1] Alberto Pimentel, Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes, livraria Central de J. E. da Costa Mesquita Editor, Rua de D. Pedro 87, Porto 1877. (pág. 68 e 69).
[2] José Duarte de Oliveira Júnior, Chronica in Jornal de Horticultura Practica. Proprietário José Marques Loureiro, Redactor Oliveira Junior. Redacção, Carmo 6, Administração, Fogueteiros, 5. Typ. De José Coelho Ferreira, Taypas, 65. Porto. 1873. (Vol. 3, pág.33).
[3] Tradução de Gustave Hubert Delchevalerie (1841-1899), Flore Exotique du Jardin d’Acclimation de Ghézireh et des Domaines de S. A. Le Khédive. Par G. Delchevalerie Jardinier en chef des Palais. Parcs vice-royaux et Jardins publics égyptiens. Typographie Française Delbos-Demouret Le Caire 1871. (pág.14).
Caractère démocratique des jardins en Egypte. — Le développement de la culture et de l'introduction des végétaux exotiques dans les jardins est un des signes qui caractérisent le plus le progrès et la moralisation d'un peuple. Dans tous les pays civilisés, il est l'objet de la prédilection générale, parce qu'il est, en même temps qu'un élément d'hygiène, d'agrément et de récréation, un art utile et une source de commerce et de progrès scientifiques. On collectionne d'ailleurs aujourd'hui les plantes dans les jardins comme on fait des galeries de tableaux, des musées d'art, etc. Les souverains entourent leurs palais des productions les plus rares du règne végétal. Le jardin de Ghézireh en est un exemple. Les villes ont un parc, un bois dans le voisinage, et, la plupart, des boulevards ombragés, des squares. La ville du Caire a son jardin de l'Ezbékieh; un grand nombre de ses avenues et de ses boulevards sont déjà plantés d'arbres; on va maintenant aux pyramides sous une immense avenue de bois noir (acacia Lebbek); on peut aller visiter les environs du Caire, tels que Ghyzé, Choubrah, l'Abbassieh, Kobbeh, le Vieux-Caire, etc., sous d'immenses avenues ombragées, parfaitement plantées et entretenues. Le gouvernement de Son Altesse a compris ce caractère démocratique des jardins et des promenades publiques, qu' il fallait au peuple et à l'ouvrier des jardins pour se reposer. Les squares sont les jardins de tout le monde et on ne saurait par suite les rendre trop attrayants en les embellissant.
[4] José Duarte de Oliveira Júnior, Chronica in Jornal de Horticultura Practica. Proprietário José Marques Loureiro, Redactor Oliveira Junior. Redacção, Carmo 6, Administração, Fogueteiros, 5. Typ. De José Coelho Ferreira, Taypas, 65. Porto. 1873. (Vol. 3, pág. 116 e 117).
[5] Jornal de Horticultura Practica. Redacção, Carmo, 6. Administração, Fogueteiros, 5. Typographia Luso-Britannica, Rua da Victoria, 166. Porto 1873. (Vol.4, pág. 177 e 178).

A Alameda nascente do Jardim da Cordoaria
A partir da entrada principal, como na proposta de Edward Buckton Lam, o jardim é estruturado por duas alamedas rectilíneas uma a nascente no sentido norte-sul, plantada de característicos plátanos de sombra (Platanus hispanica).
cd46fig. 51 – Na fotografia do início do século XX é de notar em primeiro plano a balança pública junto dos bancos e do candeeiro a gás. Photo Guedes finais do século XIX. AHMP.

Escrevem Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues, no Portugal. Diccionario Historico, Chorographico, Biographico, Bibliographico, Heraldico, Numismatico e Artístico.
A instância do visconde de Villar d’Allen, então vereador da cidade, a Camara Municipal resolveu em 1866, transformar o Campo da Cordoaria em jardim, encarregando d’esse serviço o jardineiro paizagista allemão Emilio David, que delineou o novo jardim com a maior competência.
No jardim da Cordoaria, tratado com todo o esmero, e considerado officialmente jardim botânico, está reunida uma notável série de plantas de alto valor, principalmente á volta do lago, que é opulento, com bellos tetos arboreos Alseyhilas e Balantiums e soberbas palmeiras Chamoerops, Cocos, Phoenix e Pritchardias. Na Cordoaria ha uma rua central, para passeio, orlada de platanos, e um coreto para musica. O jardim é todo circumdado por uma preciosa collecção de centenares de camélias variadas, o que torna aquelle recinto muito agradavel e pittoresco. [1]

cd47fig. 52 – Postal. Porto – Avenida no jardim da Cordoaria. Editor: Carlos Pereira Cardoso c.1905 AHMP.

cd48fig. 53 - Postal. Porto-Avenida do Jardim da Cordoaria. Edição dos Grandes Armazéns Hermínios, c.1910. AHMP.

A Alameda abria a norte por um portão para o quarteirão existente.

cd49fig. 54 – O lado norte do jardim da Cordoaria, com o portão no topo da Alameda nascente. Fotografia de Emilio Biel, in 20 phot. De Porto et des environs par Emilio Biel, phot. à Porto, 1885. BnF.

cd50fig. 55 – A Alameda nascente parte do jardim que se conserva na actualidade.

A meio desta alameda de plátanos situava-se o Coreto que Joaquim de Mello Faro intitula de pavilhão para a musica [e que] é de uma forma bastante elegante. [2]
E Alberto Pimentel refere que Ha musica neste passeio, às quintas feiras á noite e aos domingos de tarde. Costuma ser muito concorrido. Tambem ha botequim na extrema occidental do passeio. [3]

[Nota - Em 2001 o coreto foi removido para um local sem sentido na parte norte do jardim.]

Com a construção do novo Mercado do Peixe, entre 1871 e 1874, a vista da Alameda nascente para Gaia, o Douro e o Atlântico ficou comprometida, como refere o Jornal de Horticultura Practica em 1874, salientando ainda o cheiro a peixe que se fazia sentir no jardim junto ao coreto.
A construção do Mercado do Peixe

Decidida a construção de um novo Mercado do Peixe, em 1869 é traçada uma planta com as expropriações necessárias para a sua edificação.
A norte os terrenos a expropriar pertencem à Santa Casa da Misericórdia, e a sul ao Hospício dos Expostos. Na planta está ainda assinalado o palacete Sandeman.
cd51fig. 56 - Planta dos terrenos necessarios para a edificação do novo mercado do peixe e seus acessorios junto do passeio publico da Cordoaria e para alargamento da rua dos Fogueteiros. 1869. AHMP.


cd51afig. 57 – A Planta anterior orientada a norte.


E em 1874, ano da inauguração do novo Mercado do Peixe, escreve o Jornal de Horticultura Practica:
Como se não fora bastante a cadeia da Relação e o hospital da Misericórdia para darem um aspecto triste ao passeio da Cordoaria, a camará municipal construiu mesmo defronte d'aquelle jardim um mercado para a venda de peixe. O mal está feito e não tem remédio, mas o que desejáramos era que ao menos houvesse a máxima limpeza para o cheiro que exhala o peixe em putrefacção não chegasse aos órgãos do olphato dos promeneurs. Ha dias em que se torna impossível estar na avenida principal, onde a música costuma tocar.
Pedimos encarecidamente as mais sérias e promptas providências para não se inutilizar o único passeio que tem o Porto. [4]
cd52fig. 58 – Ao centro o Mercado do Peixe. Pormenor de uma das gravuras do Álbum de fotogravuras do Porto. Editor Leopoldo Wagner. Lisboa 1900.

[1] Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues, Portugal. Diccionario Historico, Chorographico, Biographico, Bibliographico, Heraldico, Numismatico e Artístico. Abrangendo a minuciosa descripção histórica e chorographica de todas as cidades, villas e outras povoações do continente do reino, ilhas e ultramar, monumentos e edificios mais notáveis, tanto antigos como modernos; biographias dos portuguezes illustres antigos e contemporâneos, celebres por qualquer título, notáveis pelas suas acções ou pelos seus escriptos, pelas suas invenções ou descobertas; bibliographia antiga e moderna; indicação de todos 0s factos notáveis da história portugueza, etc., etc. Obra Illustrada com centenares de photogravuras e redigida segundo os trabalhos dos mais notáveis escriptores por Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues. João Romano Torres, Editores, Casa fundada em 1885. Premiada com as medalhas de ouro da Exposição do Rio de Janeiro do 1908 e da Cruz Vermelha de Hespanha. Composição e impressão Rua Alexandre Herculano, 70 a 76, Lisboa 1911. (pág. 911).
[2] Joaquim de C. A. Mello e Faro, Jornal de Horticultura Practica. Proprietário José Marques Loureiro, Redactor Oliveira Junior. Typographia Lusitana 84, rua das Flores. Porto 1872. (Vol.III, pág. 108).
[3] Alberto Pimentel, Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes, livraria Central de J. E. da Costa Mesquita Editor, Rua de D. Pedro 87, Porto 1877. (pág. 68 e 69).
[4] Jornal de Horticultura Practica. Proprietário José Marques Loureiro, Redactor Oliveira Junior. Redacção, Carmo, 6. Administração, Fogueteiros, 5, Porto Typographia Bartholomeu H. de Moraes, Rua da Picaria50 a 54, Porto 1874. (Vol. V, pág 177).

A Alameda sul do jardim ou Passeio da Cordoaria
A outra Alameda a sul no sentido poente-nascente, então a mais procurada já que aí se edificou um chalet, onde estava instalado o Café Chaves (demolido em 1947) e com acesso a nascente junto ao Largo do Olival e da Torre dos Clérigos.

cd53
fig. 59 – Foto c.1945. A parte sul do Jardim do Campo dos Mártires da Pátria (Cordoaria). Ao fundo vê-se o recinto infantil Maria do Carmo Carmona.Foto dos anos 40. AHMP.

O Passeio da Cordoaria junto ao Largo do Olival.
cd54fig. 60 - Foto Alvão.
A Alameda ou Passeio da Cordoaria tendo à direita o Chalet.
cd55fig. 61 – Postal Alberto Ferreira Tipografia Peninsular. O Passeio da Cordoaria, alameda sul c.1900. À direita o Café Chaves. AHMP.

cd56fig. 62 – A Alameda sul do Jardim da Cordoaria. AHMP.

A rua a sul do jardim no qual se vê o Café Chaves. Ao fundo o Mercado do Peixe.
cd57fig. 63 – A rua a sul do jardim no qual se vê o Café Chaves. Ao fundo o Mercado do Peixe. Álbum de fotogravuras do Porto. Editor Leopoldo Wagner. Lisboa 1900.
Um hipomóvel circulando em frente do Café Chaves.
cd58fig. 64 – Postal. Porto - Campo dos Martyres da Pátria.


O Portão junto da Academia

Como no projecto de E. Lamb, mantém-se o portão que abre para a alameda do Olival.

cd59fig. 65 – Barbosa de Lima (desenho); João Batista Coelho Júnior e João Pedroso] (gravura), Academia polytechnica do Porto in Archivo Pittoresco, n.º 9, 1886. (pág.249).


cd60fig. 66 – Fotografia Casa Alvão c.1900CPF/MC

O Lago
No centro do jardim, embora com dimensões mais reduzidas em comparação com o projecto de Buckton Lamb, um lago com uma pequena ilha, uma gruta e uma cascata.
O lago é de bonito risco, os lados, ou bordos deveriam ser guarnecidos de plantas aquáticas, o que se tornaria de lindo effeito. [1]

cd61fig. 67 – O Lago do Jardim da Cordoaria visto de nascente. AHMP.

Ha de haver por ahi génio mesquinho e tacanho que se julgue suficientemente recreado com as seis árvores da Cordoaria e que junto do lago, admirando a plumagem dos cysnes, enamorado das pingas d'agua da cascata, se imagine portas a dentro d'um paraizo municipal. [2]

cd62fig. 68 – Postal. Porto – Lago do Jardim da Cordoaria. Papelaria Progresso.AHMP.

cd63fig. 69 - Postal. Porto -Lago do Jardim da Cordoaria c.1910 AHMP.

cd64fig. 70 – Postal colorido com o repuxo.

A ilha, a cascata ou gruta
Como no projecto de Edwars Burckton Lamb, no centro do lago é criada uma ilha.
cd65fig. 71 – A ilha vista do norte. Ao fundo a Cadeia da Relação, e à direita o palacete Sandeman. AHMP.
Já que no princípio da última noticia fallamos da jardinagem pública, não deixaremos passar despercebida uma obra rústica que se fez no lago do Jardim dos Martyres da Pátria e a que dão o nome de cascata ou gruta.
O mais que podemos dizer d'ella, é que não está feia, posto haja quem assevere o contrario. Uns queriam que ella ficasse ao invez do que está, isto é, virada para o poente; outros que fosse construida junto a uma das margens do lago e outros emfim dizem que era muito melhor que nunca se tivesse feito.
Se se der o nome de gruta a esta obra que está no meio do lago, diremos que não tem parecença alguma com a do parque Monceaux e se lhe chamarem cascata ainda menos tem da que o visitante vê quando sahe da estação de Fontenay e entra no bosque de Vincennes, ou da que constitue um dos mais bellos ornamentos d'esse rendez-vous de Pariz e que se denomina Bosque de Boulogne. É preciso, porém, levar á conta que faltavam ao constructor da obra do lago do Jardim dos Martyres da Pátria os recursos precisos para fazer cousa melhor. Sem água e com pouco dinheiro queiram fazer-nos, se podem, cousa que mais geito tenha!
Sim: la critique est aisée mais l’art est difficile! [3]


cd66fig. 72 - Postal. Porto-Lago do Jardim da Cordoaria. Editor: Tabacaria Rodrigues. 1910. AHMP.
À esquerda uma foto de 1973, onde se vê ao centro a gruta com o miradouro, e à direita uma imagem colorida da gruta e do miradouro.
cd67fig. 73 - Foto 1973 AHMP.
Já nos finais do século XIX, em 1887, José Augusto Vieira em O Minho Pittoresco descreve o jardim agora apropriado pelo Porto de pouco dinheiro.
O jardim da Cordoaria, pacato aos dias de semana e servindo apenas para os estudantes da Polytechnica, ou para os brazileiros ociosos, que vão tomar o sol e palestrar junto ao lago, onde os cysnes os esperam já regularmente com os biscoutinhos do almoço, é aos domingos invadido pelo Porto de pouco dinheiro, caixeiros, militares, costureiras, creadas de servir, empregados, e famílias burguezas, cujas filhas se renovam de oito em oito dias atenta a fecundidade dos casaes a qual não permitte o dispêndio completo de toilettes, e que assim resolve o problema de as mostrar com decência honesta, semana sim, semana não.
Durante que se toca a música, só pelos ingénuos escutada, essa multidão passeia methodicamente e namora methodicamente. A menina A sorri-se para o cavalheiro A. em frente do coreto e para o cavalheiro B. em frente da porta do Calvário. Pela sua parte o cavalheiro A. sorri-se para a menina B. em frente do coreto e o cavalheiro A. para a menina A. em frente da porta que dá para o hospital. O momento crítico da entrega das cartas, que já vão feitas no bolso, para as diversas hypotheses, é no apertão, em frente do coreto, onde apenas se passa furando e acotovellando, precisando muitas vezes o chefe da familia fazer a chamada do outro lado da muralha humana, com receio de que se tenha esmagado ou perdido alguma das do ranchinho. [4]


[1] Joaquim de C. A. Mello e Faro, Jornal de Horticultura Practica. Proprietário José Marques Loureiro, Redactor Oliveira Junior. Typographia Lusitana 84, rua das Flores. Porto 1872. (Vol.III, pág. 108).
[2] Jornal de Horticultura Practica. Proprietário José Marques Loureiro, Redactor Oliveira Junior. Redacção, Carmo, 6. Administração, Fogueteiros, 5, Porto Typographia Bartholomeu H. de Moraes, Rua da Picaria50 a 54, Porto 1874. (Vol. V, pág. 14).
[3] Jornal de Horticultura Practica. Proprietário José Marques Loureiro, Redactor Oliveira Junior. Redacção, Carmo, 6, Administração, Fogueteiros, 5. Typographia Luso-Britannica, Rua da Victoria, 166 Porto 1873. (Vol. IV, Pag.157).
[4] José Augusto Vieira (1856-1890), O Minho Pittoresco. Edição de luxo, illustrada com mais de tresentos desenhos de João de Almeida, gravados pelos mais célebres artistas nacionaes e estrangeiros; magnificas estampas em chromo representando costumes; e seis mappas da provincia, (geológico, dos arvoredos e terrenos incultos, dos rios e montanhas e chorographicos do districto de Vianna, do districto de Braga e do districto do Porto) expressamente gravados. Livraria de António Maria Pereira 5o — Rua Augusta — 52 Editor. Lisboa 1887. (Tomo II, pág.701).

A Flora escultura de Teixeira Lopes



cd68afig. 74 – Postal. Porto-Jardim da Cordoaria-Monumento a Marques Loureiro. C. 1905.

Se o Jardim foi sempre pensado para ser ornamentado com esculturas, na verdade só no século XX elas ali foram colocadas.
No entanto, ainda no final do século XIX surge a ideia de edificar um monumento à memória de Marques Loureiro falecido em 1898. Por razões várias a escultura denominada Flora de António Teixeira Lopes (1866-1942), é apenas inaugurada em 20 de Agosto de 1904, sendo então entregue à Câmara Municipal do Porto, presidida por Manuel de Sousa Avides (1854-1920).
A revista O Occidente na ocasião descreve o acto salientando que pela numerosa assistência, que concorreu ao acto, viu-se quão vivos estavam ainda na memória de todos os portuenses os serviços relevantíssimos po Marques Loureiro prestados ao paiz, já embelezando os jardins com as plantas mais notáveis e raras, já enriquecendo os pomares e os bosques com o que de mais conhecido e útil se cultiva lá fora.
E publica uma foto de Aurélio Paz dos Reis.

cd69fig. 75 – Aurélio Paz dos Reis, instantâneo da Entrega do Monumento pela Comissão à Municipalidade. in O Occidente de 30 de Agosto de 1904.

Para homenagear Marques Loureiro o escultor Teixeira Lopes não procura directamente evocar a sua figura.
Cria um monumento encimado por uma alegoria da Flora, virado para a Quinta das Virtudes, o horto onde Marques Loureiro cultivava as suas variadas plantas, onde apenas na base da escultura figura um baixo-relevo em bronze com a efigie de Marques Loureiro.
cd68dfig. 76 - Foto Guedes (1885-1932), Flora 1904, negativo em vidro 13 x 18 cm. AHMP.




A escultura é uma alegoria à Flora (Cloris para os gregos Vós Flora me chamais; meu nome é Cloris [1]), uma criação de Ovidio (Ovídio Publius Ovidius Naso) em Os Fastos, que a mostra como uma divindade que reina na vegetação e nas flores pelo dote do vento Zéfiro quando a desposou.
Ha nos campos gentis que obtive em dote
horto fecundo; virações o afagam;
vitrea esplendida fente o anima, o rega;
incheu-m'o o esposo meu de opimas flores,
e — são tuas — me disse. Oh! que de vezes
não hei tentado em vão contar suas cores!
e a variedade ao numero transcende.
 [2]

E se Flora é uma divindade feliz e festiva como normalmente é representada:
O porque afluem lá venaes bellezas
facilmente se explica: ha divindades
tristes, austeras, de lições profundas;
esta não; esta admitte em seus festejos,
esta chama a seus jubilos, a plebe ;
exhorta a aproveitar-se a mocidade,
e onde a rosa caiu nos mostra espinhos
. [3] 

cd68efig. 77 – Teófilo Rego (1914-1993), Flora c.1960. AHMP.
Flora pode, no entanto,  torna-se melancólica e triste ao ver,  com a aproximação do Outono, murcharem, as sua plantas e as suas flores.
Assim a descreve, também, Ovidio No Fastos.
Absorta em meu pezar, o oficio esqueço;
transcuro dons á terra; a agricultura,
os ferteis hortos, vigiar desprézo:
pendem os lirios; murcham-se as violetas;
languece a coma do açafrão punicio.
Quantas vezes meu Zefiro me disse:
— Vê que perdes teu dote. — Ah! do meu dote
bem se me dava então! Se os olivedos
trajavam flor, os ventos os despiam ;
floria a mésse, a pedra a derrotava;
ria esp'ranças a vinha, eis sopram austros,
foge o sol, o ar se obumbra, as nuvens rotas
juncam de parras a alagada terra.
 [4]
É esta Flora que Teixeira Lopes procura retratar, figurando uma jovem camponesa sem a tradicional grinalda florida na cabeça, encostada a um tronco ressequido, um rosto melancólico e triste, segurando negligentemente na mão direita um ramo de flores, como simbolizando a perenidade da vegetação e da vida humana.

cd68bfig. 78 – A Flora, monumento a Marques Loureiro.
A Flora de Teixeira Lopes torna-se assim mais humana, já que, como todos nós, sofre da passagem do tempo, parecendo evocar os versos de Baudelaire:
— Elle pleure insensé, parce qu'elle a vécu!
Et parce qu'elle vit! Mais ce qu'elle déplore
Surtout, ce qui la fait frémir jusqu'aux genoux,
C'est que demain, hélas! il faudra vivre encore!
Demain, après-demain et toujours! — comme nous!
[5]
O que verdadeiramente a entristece, o que a torna profundamente  pensativa é cet ardent sanglot qui roule d'âge en âge!



Outras esculturas serão colocadas no jardim durante o século XX.
O monumento ao poeta António Nobre cujo busto da autoria do escultor Tomás Costa (1861-1932) foi concebido em 1891/92 e o monumento com o busto foi finalmente erguido na Cordoaria em 1927 segundo um projecto do arquitecto António Correia da Silva (1880-1963) e do escultor Henrique Araújo Moreira (1890-1979).
cd86fig. 79 – Monumento a António Nobre 1927. AHMP.
Em 1954 é colocado no jardim a estátua de Ramalho Ortigão (1836-1915) de Leopoldo de Almeida (1898-1975).
cd85fig. 80 – Leopoldo de Almeida, Estátua de Ramalho Ortigão 1954. AHMP.

[1] António Feliciano de Castilho (1800-1875), Os Fastos de Publio Ovidio Nasão com traducção em verso portuguez por Antonio Feliciano de Castilho seguidos de copiosas anotações por quasi todos os escriptores portuguezes contemporâneos. Tomo III. Por ordem e na Imprensa da Academia Real das Sciências. Lisboa M DCCCLXII. (Livro V pág.25).
[2] António Feliciano de Castilho (1800-1875), Os Fastos de Publio Ovidio Nasão com traducção em verso portuguez por Antonio Feliciano de Castilho seguidos de copiosas anotações por quasi todos os escriptores portuguezes contemporâneos. Tomo III. Por ordem e na Imprensa da Academia Real das Sciências. Lisboa M DCCCLXII. (Livro V pág.27).
[3] António Feliciano de Castilho (1800-1875), Os Fastos de Publio Ovidio Nasão com traducção em verso portuguez por Antonio Feliciano de Castilho seguidos de copiosas anotações por quasi todos os escriptores portuguezes contemporâneos. Tomo III. Por ordem e na Imprensa da Academia Real das Sciências. Lisboa M DCCCLXII. (Livro V pág. 43)
[4] António Feliciano de Castilho (1800-1875), Os Fastos de Publio Ovidio Nasão com traducção em verso portuguez por Antonio Feliciano de Castilho seguidos de copiosas anotações por quasi todos os escriptores portuguezes contemporâneos. Tomo III. Por ordem e na Imprensa da Academia Real das Sciências. Lisboa M DCCCLXII. (Livro V pág.39).
[5] Charles Baudelaire (1821-1867), Le masque. Statue allégorique dans le goût de la Renaissance. À Ernest Christophe, statuaire 1861, de Les Fleurs du Mal (1.ªed.1857), in Oeuvres completes de Charles Baudelaire. Édition critique para F.-F. Gautier, textes des éditions originales, Éditions de La Nouvelle Revue Française 35 & 37, Rue Madame, Paris 1918. (pág. 200 e 201).

Parte V - Breve referência ao jardim no século XX e no século XXI

Este texto pretende ser apenas uma deambulação pelo jardim da Cordoaria a partir da Panorâmica de c.1870. Por isso apenas uma breve referência ao jardim dos séculos seguintes.
No início do século XX, com a conclusão, cem anos depois do início da edificação, da Academia Politécnica (Universidade em 1911), é demolido o quarteirão nascente do remate norte do jardim e na antiga Viela dos Condenados ou Viela do Assis e Passeio da Cordoaria foi criada uma praça chamada da Universidade e depois Parada Leitão em homenagem a José de Parada e Silva Leitão (1809-1880).
O Jardim da Cordoaria e a Academia em conclusão no início do século XX.
cd70fig. 81 – Postal. Porto Jardim da Cordoaria e Academia Polytecnica. Arnaldo Soares.
A Praça da Cordoaria, depois da Universidade no início do século XX.
cd71fig. 82 - Charles Chusseau-Flaviens (1866-1928), Igrejas do Carmo c. 1910, negativo gelatina de prata, 9 x 12 cm. Eastman Museum.
Durante a primeira metade do século XX, com maior ou menor atenção e manutenção, o Jardim, que em 1925 se passou a chamar de João Chagas (1863-1925), conservou no essencial a sua forma.

cd72fig. 83 – Vista aérea da Cordoaria.

O Jardim João Chagas nas plantas de 1949 destinadas à implantação do Palácio da Justiça do Porto no local do Mercado do Peixe segundo um projecto do arquitecto Raul Rodrigues Lima (1909 - 1980) e inaugurado em 1961.

cd73cd73afig. 84 – Plantas do jardim João Chagas (antigo jardim da Cordoaria) e terrenos circundantes. c.1949. AHMP
Nas plantas já não figura o chalet (Café Chaves).
No ângulo formado pelas duas alamedas está já cartografado o recinto infantil D. Maria do Carmo (Ferreira da Silva) Carmona (1879-1956), a esposa do então Presidente da República, criado nos anos 40 do século XX e dando uma outra finalidade ao jardim.

cd84fig. 85- O recinto infantil com as suas pérgulas.
[Alguém com pouca sensibilidade em relação às esculturas e ao lugar em que são colocadas, e ignorante da mitologia e da cultura clássicas, colocou recentemente junto a este jardim infantil o Rapto de Ganímedes de 1898 do escultor António Fernandes de Sá (1854-1959).]
Como era próprio da época nos jardins eram criadas pérgulas.
cd82fig. 86 – Uma vista da Torre dos Clérigos enquadrada pela pérgula do recinto infantil.
Vista aérea da zona da Cordoaria nos finais do século XX ainda com significativa arborização.

cd74fig. 87 – Vista aérea nos finais do século XX. Ainda se encontra construído o primeiro projecto para a Praça de Lisboa da responsabilidade do CRUARB.
O século XXI

No início do século XXI, com a realização da Porto, Capital Europeia da Cultura, é lançado um ambicioso programa de requlificação da Baixa Portuense com o título de Regresso à Baixa.
Para a elaboração e a projectação deste programa são definidas diversas Áreas de Intervenção sendo que o Jardim da Cordoaria aparece integrado na Área de Intervenção Oeste A, para a qual são apresentadas diversas propostas.
Apesar das pertinentes e sábias considerações formuladas na proposta da Equipa de Fernando Távora sobre a evolução histórica da zona e do estado em que se encontrava então o Jardim da Cordoaria referindo que os principais problemas detectados ao nível do levantamento e diagnóstico são:
- árvores de arruamento – podas incorrectas que descaracterizam as copas e provocam doenças e envelhecimento precoce, dimensionamento incorrecto das caldeiras em função do tipo de árvores;
- jardins e zonas ajardinadas – desaparecimento de grande número de elementos vegetais pertencentes às plantações iniciais, quer por envelhecimento, quer por intempéries, não se tendo efectuado a sua reposição. Descaracterização da função (jardins de colecção de plantas e reprodução da Natureza), passando a funcionar como praças ajardinadas de atravessamento. Degradação de elementos construídos (lagos, caminhos) e desaparecimento de outros (chalet, vedação exterior).
E apesar da proposta de Fernando Távora e da sua equipa, apresentar uma intervenção que pretendia conservar o carácter do jardim de uma forma discreta, preservando os (muitos) elemento vegetais de elevado valor botânico e histórico que se encontram disseminados pelo espaço, (…) mas que constituem património natural a preservar. [1]
Apesar de tudo isso foi escolhida (vá lá saber-se porquê?) a proposta concretizada da Equipa de Camilo Cortesão, suficientemente radical para ser unificadora, suficientemente simples para poder ser descrita como a justaposição de acções parcelares que incidem. [2] (o que é que isto quer dizer?!).
Apetece lembrar o que José Duarte Oliveira Júnior escreveu 130 anos antes no Jornal de Horticultura Prática e já aqui citado:
Não se pode ver sem repugnância a triste transformação porque está passando o Jardim dos Martyres da Pátria, confiado a homens incompetentes, que poderão muito bem conhecer as exigências de um quintal burguez, mas que de modo nenhum compreendem os princípios da horticultura nem as bellezas da jardinagem, arte sempre cultivada com esmero em todos os tempos. [3]

cd76fig. 88 – Equipa de Camilo Cortesão. Proposta para o Jardim da Cordoaria 2000.



cd77fig. 89 – Vista aérea da zona da Cordoaria no início do século XXI.

cd78fig. 90 – A Cordoaria imagem do Google Earth. Já com o novo arranjo da Praça de Lisboa.
Quem leu este texto sobre a construção do Jardim da Cordoaria deve perceber o que muitos, como eu, pensam da intervenção da Porto 2001.
Entenda quem quizer!

E, perante esta intervenção da Porto 2001, que ajudou a cumprir integralmente a proposta dos seus autores: o Jardim da Cordoaria deixou, há muito, de ser jardim[4] , compreendemos finalmente o rosto da Flora, agora despida da vegetação (essência de um jardim) que a rodeava, e agora mais triste e mais desconsolada, não só pelo desaparecimento de Marques Loureiro, mas olhando estupefacta o que aconteceu ao seu jardim, quase um século depois de aí ter sido colocada reinando entre as flores!

cd68cfig. 91 – A Flora na actualidade.
Assim, e para terminar, lembrando o que foi e o que é um Jardim, evoquemos António Ramos Rosa.
Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas,
calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes.
Sequências de convergências e divergências,
ordem e dispersões, transparência de estruturas,
pausas de areia e de água, fábulas minúsculas.
Geometria que respira errante e ritmada,
varandas verdes, direcções de primavera,
ramos em que se regressa ao espaço azul,
curvas vagarosas, pulsações de uma ordem
composta pelo vento em sinuosas palmas.
Um murmúrio de omissões, um cântico do ócio.
Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena.
Sou uma pequena folha na felicidade do ar.
Durmo desperto, sigo estes meandros volúveis.
É aqui, é aqui que se renova a luz.
[5]



[1] Equipa de Fernando Távora, Proposta para a Área Oeste A, Texto, Paisagismo. In Porto 2001: Regresso à Baixa, Serviço Editoria da Faup Porto 2000. (pág. 67).
[2] Equipa de Camilo Cortesão, Proposta para a Área Oeste A, Texto, Jardins. In Porto 2001: Regresso à Baixa, Serviço Editoria da Faup Porto 2000. (pág. 49).
[3] José Duarte de Oliveira Júnior, Jardins Publicos in Jornal de Horticultura Practica. Proprietário José Marques Loureiro, Redactor Oliveira Junior. Typographia Lusitana 84, rua das Flores. Porto 1871. (Vol.II, pág. 160 a 162).
[4] Idem.
[5] António Ramos Rosa (1924-2013), O Jardim in Volante Verde. 1ª Edição, col. Círculo de Poesia, Nova série, Moraes Editores, Lisboa 1986.

FIM do tema da Cordoaria
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